MALBA  TAHAN



OS SEGREDOS DA ALMA FEMININA
NAS LENDAS DO ORIENTE




Ilustraes de:
Calmon Barreto, Solon Botelho e
Renato Silva




Traduo e Notas:
Prof. Breno Alencar Bianco




Digitalizao e Reviso
ARLINDO_SAN



BIOGRAFIA DE MALBA TAHAN

(Do livro Crestomathie Arabe, do Dr. A. Van Gennep)
    
    Ali Yezzid Izz-Eddin Ibn-Salin Hank Malba Tahan, famoso escritor rabe, descendente de tradicional famlia muulmana, nasceu no dia 6 de maio de 1885, na aldeia de Muzalit, nas proximidades da antiga cidade de Meca.
    Fez os seus primeiros estudos no Cairo, e, mais tarde, transportou-se para Constantinopla, onde concluiu oficialmente o seu curso de cincias sociais. Datam dessa poca os seus primeiros trabalhos literrios, que foram publicados, em idioma turco, em diversos jornais e revistas.
    A convite de seu amigo, o Emir Abd el-Azziz ben Ibrahim, exerceu Malba Tahan, durante vrios anos, o cargo de queima1 na cidade de El-Medina, tendo desempenhado as suas funes administrativas com rara inteligncia e habilidade. Conseguiu, mais de uma vez evitar graves incidentes entre peregrinos e as autoridades locais; e procurou sempre dispensar valiosa e desinteressada proteo aos estrangeiros ilustres que visitavam os lugares sagrados do Isl.
    Pela morte de seu pai, em 1912, recebeu Malta Tahan2 valiosa herana; abandonou, ento, o cargo que exercia em El-Medina e iniciou uma longa viagem atravs de vrias partes do mundo. Atravessou a China, visitou o Japo, percorreu a Rssia e grande parte da ndia, observando os costumes e estudando as tradies dos diferentes povos.
    Entre as suas obras mais notveis, citam-se as seguintes: Roba-el-Khali, Al-Samir, Sama Ullah, Maktub. Lendas do Deserto, Mrtires da Armnia e muitas outras.




1- Prefeito.
2- Malba ou Malbe  o nome de uma pequena povoao que fica no sul da Arbia; Tahan significa o moleiro. A traduo do nome seria, portanto: O moleiro de Malba.
    

    
    
    
    
DEDICATRIA


Escuta, beduna, escuta! Quando abandonaste 
a minha tenda tomei do cala e escrevi o teu 
nome na capa do meu Alcoro!


E todos os dias, no silncio da prece, a saudade 
Vem, como o tigre dos juncais, bramir no fundo 
de meu corao.


Es-san-aleija! A minha promessa,  beduna!, 
no foi escrita na areia incerta do deserto. 
Por isso,  que vers o teu nome repetido em todas 
as pginas deste livro.


S Allah sabe a verdade! Uassal!


    Osis de Halib, 1 da lua de Rabiah de 1904.

    Malba Tahan



RADI! RADI!
    
U
m dilvio de luz cai da montanha. O silncio, na claridade suave da tarde, era como uma ddiva de Allah sobre a terra. Parecia-me ouvir, ao longe, o doce som de flautas e adjuaks vibradas por artistas invisveis.
     porta da tenda surge, de repente, a figura altiva do quebir, chefe da caravana.
     Vamos, beduno!  gritou, arrebatado.  A grande caravana vai partir! Iremos para alm da Prsia; atravessaremos a ndia; levaremos os nossos camelos at os confins da China e do Tibet. Ters a fortuna de conhecer as cidades e os recantos mais prodigiosos do Isl: encontrars os mercadores mais ricos do mundo; os teus lucros sero fabulosos. Vamos! Por Allah, o Exaltado! A caravana vai partir!
    Respondi:
     Sim, valente quebir! Sempre desejei conhecer as maravilhas desses pases cheios de lendas e mistrios. Estou convencido de que essa longa e curiosa viagem seria para mim fonte de incalculveis riquezas.
    Mas...
    Naquele momento a encantadora Radi, com sua graa infinita de inum, colocava cocrals1 de ouro em torno de seus tornozelos morenos.
    A caravana vai partir? Vai em busca da Riqueza? Deix-la ir, a caravana...
     Prefiro,  quebir! Continuar aqui, recostado nestas almofadas, vendo a querida Radi prender colares de ouro em torno de seus tornozelos morenos...

* * *
    
    A baraca2 protegia a minha confortvel tenda na orla do deserto. O narguil3 embriagador parecia mais doce que o sorriso nos lbios da noiva apaixonada.
    Algum chama por mim. Ouo o meu nome repetidas vezes. Reconheo a voz de um taleb4.
     Por que me procuras,  venervel taleb?  perguntei.
     Vem comigo, jovem poeta!  respondeu o sbio. O rei de Cabul e o imperador da China, em viagem para Meca, pararam, esta tarde, no osis de Bled-Djerid5. Falei em teu nome. J leram os teus versos. Admiram-te.  Fazem questo de  conhecer-te.  Vamos at ao
    
    
1- Cocral  pea de ouro ou marfim em forma de pulseira larga. Inum, fada; feiticeira. Criatura dotada de encantos irresistveis.
2- Baraca  bno especial de um santo. A tenda, sob a proteo de uma perfeita baraca, est livre dos maus olhares e dos espritos daninhos e perturbadores.
3- Narguil  pea usada pelos fumantes. H diferentes tipos de narguils. Em geral a fumaa  aspirada por um tubo longo e passa por uma pequena camada de gua.
4- Taleb  Professor.
5- Bled-Djerid  pas das tmaras.
osis antes que eles partam. Por Allah!  uma oportunidade nica em tua vida! Recebers as homenagens dos soberanos mais ricos e generosos! Sers o poeta mais afamado do mundo: Ficars mais clebre do que Antar6 e mais invejado do que Moslim7.
     Sim, judicioso taleb! Sempre ambicionei receber as homenagens daqueles que tm em mos o ouro e o poder. O imperador da China e o rei de Cabul so os monarcas mais ricos e mais generosos, entre quantos vivem sobre a face da terra. Recebido em audincia especial, por esses soberanos, tornar-me-ei clebre. O meu nome, emoldurado pela Glria jamais sairia da memria dos homens.
    Mas...
    Naquele momento a deliciosa Radi cantava. A sua voz era to meiga como a lua e mais doce que as tmaras brancas do Imen.
    O Rei e o Imperador esperam por mim? Encontrarei no osis de Bled-Djerid a Glria que deslumbra e seduz os mortais?
    A Glria? Deix-la ir, a Glria...
     Prefiro,  taleb!, continuar aqui, recostado indolente sobre estas almofadas, ouvindo a querida Radi cantar, com indizvel ternura os seus sonhos de amor...

* * *
    
    Pouco faltava para a hora melanclica do ezz8. Uma poeira de luz envolvia a minha tenda onde as sombras procuravam refgio.
    Mac Allah!9 Chamam por mim. Quem ser?
    Abre-se a porta. Acha-se, diante de mim, o meu grande e dedicado amigo.
     Venho buscar-te, meu caro  exclamou, cheio de alegria. Todos os habitantes da aldeia esto reunidos na mesquita. Mafoma, o enviado de Deus, vai falar aos fiis, depois do ezz. Aquele que ouvir as palavras do Profeta estar salvo e ter o seu nome includo entre os bem-aventurados! Vem,  irmo dos rabes, vem comigo!
    Respondi:
     Sim, meu grande e incomparvel amigo! Sempre almejei obter, pela mo do Enviado de Allah, a minha reabilitao aos olhos de Deus! Certo estou de que hoje na mesquita, entre cheiques10 e ulems11, obteria a remisso de meus erros e a salvao de minhalma. Ficaria, para sempre, livre do peso de meus pecados.
    Mas...
    Naquele momento a sombra do desejo aparecia, bem ntida, nos olhos negros de Radi.
    
    
    
6- Antar  (Antara Ibn-Cheddad) poeta rabe notvel, anterior ao Islamismo. Tornou-se famoso por causa do Romance de Antara no qual o poeta aparece como heri ao lado de Abla, a sua apaixonada, encarnando todas as virtudes que eram atribudas aos paladinos errantes das tribos pags.
7- Moslim  (Moslim ben el-Valid) nasceu no ano 747 e morreu em 803. Teve, durante grande parte de sua vida, a proteo de vrios generais e ministros. Foi conhecido pelo apelido de Cari el-Asavani, cuja traduo : Vitima das lindas mulheres.
8- Ezz  As preces obrigatrias para os rabes so em nmero de cinco; a primeira (mogreb)  feita ao nascer do sol; e a ltima (ezz)  realizada  noite.
9- Mac Allah  Exclamao usual entre os crentes. Corresponde aproximadamente ao nosso Deus seja louvado.
10- Cheique  tratamento cerimonioso atribudo, em geral, aos homens respeitveis pela idade ou pela posio social. Chefe de tribo.
11- Ulem  doutor; homem de grande cultura.
    O Profeta vai falar na mesquita? Devo ouvir a sua palavra que redime e salva? A Salvao Eterna! Deix-la ir, a Salvao Eterna...
    Prefiro,  inesquecvel amigo! continuar aqui, recostado indolente nestas almofadas, pois a sombra do desejo aparece, neste momento, bem ntida nos olhos negros e sedutores de Radi...

* * *
    
    Minha pobre tenda est triste e vazia na orla do deserto. Radi desapareceu de meus olhos como um asfir12 que fugisse da priso.
    De nosso amor, que parecia eterno, restam apenas as tmaras amargas da saudade.
    Radi! Radi! Chovam lrios e rosas em teu colo! Chovam hinos de glria na tua alma! Lembra-te, Radi! Por ti sacrifiquei a Riqueza, a Glria, a Salvao Eterna!...
    Resta-me, ainda, a Vida!
    Sim, a Vida... Deix-la ir, a Vida...






















12- Asfir  pssaro verde do Sul.


MINHA VIDA QUERIDA

N
a ltima curva da estrada Te-ha-t parou e olhou para o cu. As montanhas sombrias, cobertas de neve, pareciam gigantes encanecidos que vigiavam silenciosos as fronteiras do Tibet. O sol, j perto do horizonte, retardava a sua marcha como se quisesse receber as ltimas preces com que os lamas1 imploravam a misericrdia do Senhor da Compaixo2.
    A sombra de um vulto surgiu, sobre uma pedra, na margem da estrada. Te-ha-t tremeu de pavor.
    Em seu caminho achava-se o impiedoso Han-Ru, o Anjo da Morte, o mensageiro da dor e da desolao3.
    O corao tem, por vezes, o dom de pressentir a desgraa. Te-ha-t, ao avistar o Anjo da Morte, lembrou-se de sua noiva, a formosa Li-Tsen-li.
    Te-ha-t dirigiu-se, pois, sem hesitar, ao mensageiro cruel do Destino.
     Han-Ru,  gnio desapiedado!  exclamou.  Que procuras aqui, quase  sombra da casa da encantadora Li-Tsen-li? Bem sei que a tua presena vale por uma sentena de morte.
    Respondeu Han-Ru, com a pacincia de um enviado do Eterno:
     A tua inquietao  legitima, meu amigo. Vim a este recanto buscar a tua noiva Li-Tsen-li. Chegou, pela determinao do Destino, o termo de sua existncia neste mundo. Li-Tsen-li vai morrer!
     Piedade, Han-Ru! Piedade! - implorou Te-ha-t.  Ela  to jovem, e to prendada! Pelo amor de Maia Devi4 deixa viver Li-Tsen-li!
    O Anjo da Morte meditou em silncio durante alguns instantes e depois, sem erguer o rosto, disse:
     Muito fcil ser, para aquele (e  esse o teu caso!) que tem o amparo de Maia Devi, prolongar a vida de Li-Tsen-li. Sei que tens direito a uma vida longa e tranqila; restam-te, ainda, quarenta e seis anos de vida. Poders ceder  tua noiva a metade do tempo que te cabe, no futuro, para viver. Li-Tsen-li ficar, portanto, com direito  metade de tua vida e viver em tua companhia, vinte e trs anos. Findo esse prazo, morrero ambos no mesmo instante! Aceitas essa proposta?
    
    
1- Lamas  Sacerdotes budistas entre Mongis e Tibetanos. O chefe supremo  o grande Lama ou Dalai-Lama.
2- Deus.
3- Han-Ru  Na complicada mitologia hindu figuram nada menos de 17 deuses. Os trs primeiros, Brama (o principio criador), Vishnu (o principio conservador) e Siva o principio destruidor), formam a celebre trindade hindu. Alm dos 17 deuses, os hindus incluram entre as divindades os planetas, alguns rios (o Ganges, por exemplo,  adorado sob a forma de uma deusa) e certos animais. Siva, cuja esposa  Maia Devi ou Bhavni, tem vrios auxiliares. Han-Ru  um dos gnios que se encarregam de cumprir as determinaes do Deus da Destruio.
4- Maia Devi  tambm denominada Bhavni.  a esposa de Siva, terceiro deus da trindade hindu. Essa deusa , em geral, representada sob a forma de uma linda mulher, em atitude ameaadora, montada num tigre.

       
       A sombra de um vulto surgia, sobre uma pedra, na margem da estrada. Te-ha-t tremeu de pavor. Em seu caminho achava-se o impiedoso Han-Ru, o Anjo da Morte, o mensageiro da dor e da desolao.
    
    As palavras de Han-Ru fizeram hesitar o jovem Te-ha-t. Quem, decerto, no ficaria indeciso antes de sacrificar, cedendo a outrem, a metade da prpria vida?
     A tua sugesto, Han-Ru, implica uma deciso de infinita gravidade para a minha vida. No poderei tomar uma deciso nesse sentido, sem, previamente, consultar os meus trs grandes amigos. Poders esperar que eu oua a opinio daqueles que sempre me auxiliaram e orientaram na vida?
     Farei como pedes, meu amigo  respondeu o Anjo da Morte.  At o findar da noite que vai comear, aguardarei a tua palavra final. Deveras voltar, com a tua deciso,  minha presena, antes do amanhecer.
    
    * * *
    
    Partiu Te-ha-t em busca dos amigos, cujos sbios conselhos pretendia ouvir. Deveria ele como noivo sacrificar a metade da sua vida para salvar das garras da Morte a criatura amada?
    O primeiro amigo de Te-ha-t era um artista tibetano de assinalados mritos. Su-Liang sabia esculpir com admirvel perfeio, na pedra ou na madeira, e os seus trabalhos eram mais apreciados do que os olhos negros das Apsaras que enchem de encanto o cu de Indra1.
    
    
1- Cu de Indra  Da multiplicidade de deuses que so apontados na Mitologia Hindu decorre a crena, geralmente aceita, de que existem vrios cus. O cu de Indra parece ser o mais notvel. Erguem-se, nessa regio divina, palcios de ouro ornados de pedras preciosas, grutas, jardins prodigiosos cujas flores exalam cem mil perfumes diferentes. Um foco luminoso  mais intenso do que o sol  derrama uma claridade sobre todos os recantos do paraso hindu. O cu de Indra  povoado por uma infinidade de ninfas encantadoras denominadas Apsaras.
    Eis como Su-Liang, o escultor, falou a Te-ha-t:
     A vida, meu amigo, s tem sentido quando a sua finalidade  traduzida por um grande e incomparvel amor. E o amor que dispensa sacrifcios e renncias no  amor;  a expresso grotesca de um capricho vulgar. Feliz aquele que pode demonstrar a grandeza de seu corao medindo-a pela extenso de um ingente sacrifcio. Pela mulher amada deve o homem sacrificar, no apenas a metade de sua vida, mas a vida inteira! Que importa, Te-ha-t, uma existncia longa, torturada pela dor de uma incurvel saudade? Prefervel, mil vezes, que vivas a metade de tua vida  sombra feliz do amor delicioso de tua eleita. No teu caso eu no teria hesitado, um s instante, em aceitar a proposta do terrvel Han-Ru.
    O segundo amigo de Te-ha-t chamava-se Niansi. Era hbil caador e auferia considerveis lucros mercadejando peles.
    Ao ouvir a consulta do jovem, Niansi no se conteve:
      uma loucura, Te-ha-t! Onde se viu um moo, rico e cheio de sade, sacrificar a metade da vida por causa de uma mulher? Encontrars, pelo mundo, milhes e milhes de mulheres lindas, muitas com as sete ou talvez, com as oito perfeies indicadas no Livro Sagrado1. Aqui mesmo (no Tibet) poders topar, em qualquer aldeia, com centenas de meninas, algumas das quais nada ficariam a dever, julgadas pelos seus predicados de graa e beleza,  tua noiva Li-Tsen-li! Desgraada a idia de quereres adiar o termo da existncia de uma mulher com o sacrifcio de vinte e tantos anos de.tua vida! E quem poder prever o futuro? Amanh, essa mulher, arrebatada por uma nova paixo e deslembrada do sacrifcio que por ela fizeste, abandonar-te- e ir viver, nos braos de outro, a vida que  a tua prpria vida! Que fars, ento, vendo-a ceder a um odiento rival os dias roubados ao rosrio de tua existncia? Penso que no deverias ter hesitado ante a proposta descabida de Han-Ru, repelindo-a no mesmo instante.

* * *
    
    A divergncia entre os dois amigos mais fez crescer a indeciso e a incerteza no corao de Te-ha-t.
     Vou ouvir  pensou o jovem  a opinio do prudente Kin-S. S ele poder indicar-me o caminho a seguir.
    Kin-S, citado no Tibet como um estudioso das leis e dos ritos, assim falou ao apaixonado noivo:
     Se amas realmente Li-Tsen-li, acho que deves ceder, a essa jovem, a metade do tempo que te resta para viver. Convm, entretanto, impor uma condio. A parcela de vida, depois de cedida a Li-Tsen-li, poder ser retomada por ti, em qualquer momento. Ters, assim, a tua tranqilidade garantida no caso de uma infidelidade de tua futura esposa. Se ela, por qualquer  motivo, no se mostrar  digna de teu sacrifcio,  perder o direito ao resto 
     
     
     
1- Livro Sagrado  A religio dos hindus , em parte, explicada nos Vedas, que no passam, afinal, de uma coleo de hinos, preces e conceitos morais. O Livro Sagrado a que se refere o heri do conto deve ser, naturalmente, o Cdigo de Manu, cuja origem  anterior ao IX ante-sculo.
     Todos os conceitos e princpios religiosos no livro de Manu aparecem, alis, citados nos Vedas.
     H quatro Vedas, sendo cada um deles dividido em duas ou trs partes. O primeiro  constitudo exclusivamente por vrios hinos religiosos e preces; o segundo estuda os princpios religiosos e analisa as controvrsias teolgicas; o terceiro discute certos pontos obscuros de Teologia. O quarto Veda no , em geral, aceito pelos doutores hindus.
     Os Vedas no podem ser atribudos a um nico autor; em cada um deles colaboram vrios personagens de pocas diversas. Os diversos escritos foram reunidos sob a forma atual no sculo XVI, antes de Cristo.
da vida que lhe cabia viver! Fora dessa condicional, qualquer outra soluo para o caso no passaria de irremedivel loucura!
    E concluiu o seu conselho com estas palavras:
     Fizeste bem em hesitar. A Hesitao  irm da Prudncia. S os loucos e temerrios  que nunca hesitam.

* * *
    
    Achou Te-ha-t bastante prudente e razovel a proposta sugerida pelo douto Kin-S, e levou-a sem perda de tempo, ao conhecimento de Han-Ru, o Enviado da Morte.
    Han-Ru aceitou a condio imposta pelo noivo:
     Est bem, Te-ha-t. Aceito a tua proposta. A bondosa Li-Tsen-li vai viver os vinte e trs anos. Esta parcela de vida no foi, porm, dada, mas sim emprestada.

* * *
    
    Passaram-se muitos meses. Li-Tsen-li casou-se com o jovem Te-ha-t, e os dois eram citados como os esposos mais felizes do Tibet. Li-Tsen-li, depois do casamento, passou a chamar-se Ti-long-li, vocbulo que significa minha vida querida.
    Um dia, afinal, Te-ha-t foi obrigado a fazer uma longa viagem para alm das fronteiras de sua terra. Deixou Minha vida querida e seu filhinho, que j contava algumas semanas, em companhia de seus pais.
    Quando regressou, tempos depois, teve a surpresa de encontrar os seus trs amigos que o aguardavam na entrada da pequena povoao.
     Onde est Minha vida querida?  perguntou, ansioso, aos amigos.  Por que no veio? Estar doente? Que aconteceu  Minha vida querida?
    Disse um dos amigos:
     Enche de nimo e de coragem o teu corao,  Te-ha-t! Uma grande desgraa, h trs dias, caiu sobre a tua vida!
     Desgraa?  repetiu, aflito, Te-ha-t.   horrvel esta angstia! Vamos! Quero saber a verdade! Onde est Minha vida querida?
     Morreu!
     Morreu!  gritou Te-ha-t, desesperado.  No  possvel! No podia morrer! Eu sacrifiquei por ela, metade de minha vida!
    E Te-ha-t, dominado pela dor e revoltado pelo infortnio de haver perdido a sua esposa querida, entrou a blasfemar como um possesso, contra o Senhor da Compaixo. Erguia os braos para o cu; rolava, por vezes, sobre a terra. Insultava o nome do Criador.
    Os amigos afastaram-se, cautelosos. Era preciso deixar o infeliz Te-ha-t dar plena expanso  indizvel angstia que lhe esmagava o corao.
    Em dado momento Te-ha-t viu surgir diante de si a figura de Han-Ru, o Anjo da Morte.
     Han-Ru!  bradou, num tom de incontido rancor.  Faltaste com a tua palavra. Que fizeste de Minha vida querida?
     Escuta, Te-ha-t  respondeu Han-Ru.  Preciso dizer-te a verdade, para que no continues a blasfemar desse modo. A tua esposa deveria viver vinte e trs anos. Um dia, porm, o seu filhinho adoeceu gravemente. O pequenino ia morrer. Que fez a tua esposa? Pediu, em preces, que a sua vida fosse dada ao filhinho enfermo para que ele pudesse viver! Salvou-se o teu filho, mas tua esposa morreu!
    E, ante a estupefao de Te-ha-t, o Anjo da Morte concluiu:
     E enquanto tu, como noivo, hesitaste em ceder a metade de tua vida, ela me extremosa, no hesitou um segundo em dar, pelo filhinho, a vida inteira!
    
    
    




     
    
    
    
    
    



A MULHER E O CASTIAL
    
     S a mulher pode abenoar 
     o lar. As mulheres piedosas 
     salvam o mundo.
     
     (Do Talmude)
    
A
 sombra fugaz de um vulto feminino esgueirou-se ao longe, no fundo da rua sombria.
    Os mais desencontrados pensamentos, nascidos da inquietao de seu corao, baralhava-se, naquele momento, no crebro de Daniel Leib. Sentia-se envolvido numa atmosfera de tristeza, que ele no sabia explicar. Como se lhe afigurava angustiosa aquela insatisfao eterna e acabrunhante! Encontraria, afinal, em seu pai, sempre prudente e sensato, o amparo moral de que tanto precisava?
    O velho Renato Leib ergueu-se vagaroso, aproximou-se do filho e, tocando-lhe o ombro com a mo larga e trmula, disse-lhe, bondoso:
     Daniel, ouve c.  preciso que confies em mim. Devo dizer-te a verdade com franqueza e lealdade que convm a um homem de bem, quando fala ao filho. As queixas e recriminaes que acabaste de formular e as palavras de negra revolta que proferiste so, a meu ver, uma grande e dolorosa injustia. Revoltas-te contra o Destino, julgas aniquilada a tua vida, e, no entanto, o Destino tem sido, para contigo, prdigo em benefcios de toda espcie. A partir da poca de teu acertado casamento...
     Acertado casamento?  repetiu Daniel, sublinhando, irnico, as palavras paternas.  Esse casamento que todos enfeitam com as lantejoulas dos elogios fceis, no passou, afinal, de um erro deplorvel de minha vida.
    O judicioso Renato esboou um sorriso de tolerncia e bondade.
     Toquei precisamente no ponto vital, visto que dele julgas irradiarem todas as desditas e contrariedades de tua vida: o teu casamento! No te sentes feliz com tua esposa: mais de cem vezes tenho j entrevisto em tuas palavras queixas e censuras que visam diretamente quela que escolheste para me de teus filhos.
     Falta-me quem me compreenda  dizes.  Tenho junto de mim algum de uma intolervel vulgaridade. E, levado pela eterna insatisfao dos teus desejos, envolves a tua boa Lenida num vu de defeitos e fraquezas, tornando-a a menos desejvel de todas as esposas. Como explicar essa atitude de tua parte em relao a uma mulher que j obteve em tempo no muito distante, as preferncias de teu amor? Sei, ou melhor, adivinho tudo, meu caro Daniel. Insistes, naturalmente, em fazer paralelos entre Lenida e as outras mulheres, e esses paralelos em que as duas partes so vistas desigualmente, levam-te a ver sempre com olhos desfavorveis a tua esposa. Com as fantasias de tua imaginao impetuosa, enfeitas as esposas ou amantes de teus amigos, com predicados raros e encantos admirveis, ao passo que de tua paciente companheira s sabes realar os defeitos, esquecido, por completo, de suas boas qualidades. Lembra-te de que no tive ingerncia em teu casamento. Afligi-me, no poucas vezes, com a idia de que poderias, arrebatado por insofrida paixo, fazer uma escolha infeliz, e trazer para o recesso do teu lar, sob o escudo de teu nome, uma criatura pouco digna de teus afetos. Um erro dessa natureza , bem sei, fonte perene de cruciantes arrependimentos e desgostos. Com o perpassar dos anos, entretanto, procurei observar, dia a dia, a tua esposa, para ver se eram justas ou no as tuas queixas. Mais de uma vez tive mpetos de abrir os teus olhos (como agora o estou fazendo) e revelar-te a verdade que desconheces. Se o no fiz h mais tempo, foi unicamente por acreditar que seria mais nobilitante que ao teu corao a verdade chegasse guiada pelo teu bom-senso de marido e de pai. Lenida  carinhosa e simples; esforada e econmica; ativa e zelosa. Muito longe est, talvez, de ser brilhante como uma artista ou de possuir talento excepcional; mas  sensata e agradvel no conversar, discreta nas atitudes e modesta nas maneiras. Jamais se queixa da pobreza em que vive, nem inveja os belos colares e vestidos que algumas amigas ostentam. Nada exige; nada reclama. Se alguma vez pareceu faltar-te foi porque no a procuraste como devias. Julgavas, por vezes, que ela estivesse muitas lguas longe de ti, quando, na realidade, e em pensamento, tinhas-la a teu lado. Me extremosa, jamais se descuidou um s momento dos filhos, para os quais tem sido de uma dedicao incomparvel. Ser linda? Nada quero afirmar a tal respeito, mas pelo que tenho ouvido de bocas insuspeitas, Lenida seria capaz de fazer boa presena entre as moas mais requestadas da cidade. S tu, meu filho, s cego, inteiramente cego, para apreciar as belas qualidades que adornam tua esposa.
     Mas, meu pai...
     No me interrompas, Daniel  continuou o ancio.  Falei-te com a franqueza de um amigo sincero e com a lealdade de um pai dedicadssimo. Ser-me-ia fcil provar-te (sem lograr, talvez, convencer-te) que no s digno, talvez, da esposa que tens. Estou certo, entretanto, de que s poders compreender perfeitamente o sentido de minhas palavras, se te dispuseres a ouvir, com pacincia, uma lenda, ou melhor, uma simples histria, quase infantil.  a histria de um castial. Queres ouvi-la?
     Conta-a, meu pai.
    
* * *
    
     Era uma vez (por que no comear assim?), era uma vez, repito, um pobre jardineiro, humilde e muito pobre, que se chamava Tagil.
    Ao regressar, um dia, de uma excurso  floresta, avistou Tagil um viajante desconhecido que se achava em perigo ao ser assaltado por dois ladres, em estrada deserta. Tagil, alma nobre e nimo valente, sem medir as conseqncias de seu destemor, atirou-se, em socorro do viajante e conseguiu, graas a sua fora e coragem, pr em fuga os dois bandidos.
    O desconhecido (que era, alis, um rico mercador), ao chegar  cidade, disse ao corajoso Tagil:
     Meu amigo, no fosse o seu providencial auxlio, e eu seria, com certeza, assassinado pelos facnoras que me atacaram na estrada. Devo-lhe, pois, a vida. E, como lembrana de minha infinita gratido, quero dar-lhe um presente.
    E o mercador entregou ao jardineiro uma pequena caixa amarela de couro lavrado.
    Tagil, nem bem chegado a casa, abriu sofregamente, cheio de curiosidade, a misteriosa caixa para conhecer as preciosidades que ela deveria conter.
    Com grande espanto encontrou, apenas, um castial de forma estranha e de metal escuro e pesado.
     Ora, um castial!  exclamou ele, profundamente decepcionado com aquela triste descoberta. Um castial! Ora vejam! Arrisco a vida, luto contra salteadores de estrada e, ao cabo de tudo, ganho esta droga! Que vou fazer com isto? Em que poder um simples castial melhorar ou remediar a minha vida? Seria prefervel que o mercador me tivesse presenteado com um punhado de pataces de prata!
    E, certo de ter sido logrado em suas esperanas, vencido pela desiluso que lhe trouxera o desvalor do presente, Tagil atirou com o castial para um canto e deixou-o para ali esquecido, abandonado como coisa intil e desprezvel.
     Ora, um castial!
    E Tagil quando nele punha os olhos, vinha-lhe  lembrana, com tristeza, o logro que sofrer ao receber a caixa amarela do rico mercador.
     Ora, um castial!
    O certo  que o msero castial rolava, como se fora uma inutilidade, de um lado para outro em casa de Tagil. Tendo, certa vez, cado pela janela abaixo esteve muitos dias ao relento, perdido no terreiro imundo. De outra feita, serviu de calo a um mvel partido e, por ltimo, at de martelo manejado pelas mos fortes e calosas do seu dono.
    Um dia, afinal, Tagil, oprimido pelas dificuldades da vida, deixou a casa em que morava e foi residir numa cidade prxima, onde esperava achar trabalho. Levou consigo quase todos os objetos que possua; deixou apenas, sobre uma mesa tosca e suja, como coisa imprestvel, o pesado castial com que o presenteara o rico mercador a quem salvara da sanha mortfera de dois execrados de Allah!
    Ora, aconteceu que a casa deixada por Tagil foi ocupada, dias depois, por um msico de profisso.
    Leonardo (assim se chamava ele) era homem pobre e trabalhador; ao encontrar o castial abandonado, teve a impresso de que se tratava de uma pea curiosa e digna de ateno. Cuidando, desde logo, de livr-lo do p que o cobria e das manchas que o enfeavam, notou que apresentava na superfcie da base certas linhas e figuras dispostas de modo muito singular.
    Deslumbrado com a inesperada descoberta, Leonardo entrou a examinar com toda a meticulosidade o desprezado utenslio e teve ensejo de verificar que se tratava de uma verdadeira maravilha. A figura da base era, sem dvida, execuo paciente de um artista genial. Via-se gravado no metal, com traos admirveis, quase imperceptveis, a figura de uma soberba galera que deslizava impvida num mar imenso, beijada brandamente pela escumilha das ondas irrequietas; inclinando-se um pouco o castial j a cena era inteiramente diversa. Distinguia-se uma bailarina com seus vus, a danar no meio de um lindo jardim. Desviando-se o olhar um pouco mais para a direita, notava-se que a bailarina desaparecia ocupando-lhe o lugar uma imponente mesquita com suas almenaras1 apontadas para o cu; procurando-se, com cuidado, uma disposio conveniente, graas a um fluxo de



1- Almenaras  torres de que so providas as mesquitas. Das almenaras ou minaretes, o muezin chama os fiis  prece.
um fluxo de luz, via-se, ainda, um corcel negro a galopar sobre uma montanha de nuvens. 
Tudo isso o genial gravador fizera, com o buril, na superfcie polida do castial.
    Sem perda de tempo, Leonardo levou o maravilhoso objeto a diversas pessoas, e todas tiveram oportunidade de admirar a extraordinria perfeio do originalssimo trabalho. E Leonardo, ao desfazer-se do precioso castial ganhou uma fortuna incalculvel.
    Como  singular o destino das coisas!
    O que nas mos de Tagil era uma pea intil e desvaliosa, tornara-se uma verdadeira preciosidade aos olhos inteligentes de Leonardo. Este, mais hbil, soube, com finura, ver as maravilhas que o outro jamais conseguira vislumbrar.
    Quantos homens no h, por este mundo, a quem cercam tesouros inapreciveis, mas cujos olhos, desorientados por sentimentos maus, no chegam, sequer, a perceber o brilho ofuscante das pedrarias que o rodeiam?
    Tens, meu filho, em tua casa, um precioso castial que o Destino depositou em tuas mos. Cuida dele com carinho e cuidado. No queiras ser o ridculo Tagil da lenda, que no soube avaliar as grandezas do tesouro que possua.

* * *
    
    Terminada a narrativa, Daniel Leib ergueu-se, afinal.
    As ltimas palavras de seu pai vibraram no ar e ecoavam-lhe impertinentes aos ouvidos.
     No queiras ser o ridculo Tagil da lenda...
    A tarde caa lentamente. As primeiras sombras acomodavam-se j pelos recantos que a luz ia, pouco a pouco, abandonando. Lembrou-se Daniel, daquele momento, de que sua esposa Lenida, sempre bondosa, estaria, com certeza, resignada,  sua espera.
    Estranho remorso, de que ele no podia desvencilhar-se, oprimia-lhe fortemente o corao.
    Teve mpetos de correr a casa, abraar a mulher, abra-la muito, beij-la como j no o fazia h muito tempo.
     Vai, meu filho, vai.






    
O PASTORZINHO ADORMECIDO
    
V
encido pela fadiga, o pobre pastorzinho deitou-se  sombra de uma grande rvore,  margem da estrada, e dormiu placidamente.
    Que idade poderia ter aquele pegureiro de feies to delicadas? Quinze ou dezesseis anos, talvez... Era um adolescente.
    Passou pela grande estrada o rei com sua rutilante guarda de nobres e cavaleiros. O poderoso monarca no tinha filhos e procurava ansioso pelo mundo um herdeiro digno de sua invejvel coroa. Ao avistar, pois, o jovem zagal, o Rei parou e dirigindo-se ao oficial que o acompanhava, disse-lhe.
     Que belo menino vejo ali, a dormir, sob aquela rvore! Se a boa-sorte o colocou no meu caminho, para que contrariar o Destino? Tenho o pressentimento de que poderei realizar agora o sonho admirvel de minha vida! Vou levar aquele jovem para o meu palcio e faz-lo herdeiro do meu trono e de meus tesouros.
    E o rei desceu de sua bela carruagem e aproximou-se cuidadoso do pastorzinho adormecido.
    Mas... como  incerto e caprichoso o destino das criaturas!
    O pastorzinho dormia to sereno, to tranqilo, que o poderoso monarca ficou com pena de acord-lo.
     No, no o despertarei agora  exclamou afinal.  Seria uma crueldade arranc-lo s delcias do sono. Voltarei depois.
    E, deixando o pastorzinho adormecido, seguiu a jornada, pela estrada longa, para nunca mais voltar...

* * *
    
    Momentos depois, pela estrada silenciosa, passou uma formosa princesa, com suas aias e damas de companhia. Acentuadamente romntica no hesitava em satisfazer as fantasias mais extravagantes que lhe ditava o arrebatado corao. Ao pousar os olhos no pastorzinho adormecido, encheu-se de sbita alegria e exclamou:
     Que lindo rapaz, vejo ali, a dormir, descuidado, sob aquela rvore! Tem, precisamente, as feies admirveis do noivo que sonhei para mim. Vou lev-lo, agora mesmo, para o palcio de meus pais e eleg-lo meu futuro esposo. Sinto-me, desde j, loucamente apaixonada por esse louro pastorzinho!
    E a sentimental princesa aproximou-se leve e delicadamente do eleito de seu corao.
    Mas... como  incerto e caprichoso o destino das criaturas!
    O jovem dormia to plcido, to tranqilo, que a princesinha romntica ficou com pena de acord-lo.
     No! Seria impiedade despert-lo agora!  bem possvel que esteja at a sonhar comigo! Voltarei depois, ao cair da tarde!
     

     Ao pousar os olhos no pastorzinho adormecido, encheu-se a princesa de sbita alegria e exclamou:  Que lindo rapaz vejo ali, a dormir, descuidado, sob aquela rvore!
    
    
    E a encantadora filha de reis, deixando o pastorzinho adormecido, seguiu jornada, pela longa estrada, para nunca mais voltar.

* * *
    
    Continuava, ainda, o pastor a dormir sob a rvore, quando cruzou a estrada um dos bandidos mais perigosos da regio. Pesavam-lhe sobre os ombros os crimes mais cruis e revoltantes.
    Ao deparar-se-lhe o pastorzinho adormecido, o assassino encheu-se de dio e furor. Em seus olhos brilhava a perversidade dos loucos furiosos.
     Ol! Que vejo! Um menino a dormir como um brio no caminho! Vou mat-lo, e  para j. Assim me vingo das perseguies que tenho sofrido nesta maldita terra.
    E, arrancando de um afiado punhal, o facnora aproximou-se, p ante p, do pobre pastorzinho.
    Mas... como  incerto e caprichoso o destino das criaturas!
    O jovem dormia to sereno, to tranqilo, que o bandido hesitou em sacrific-lo.
     No - resmungou afinal.  No o matarei agora! O sono no permitiria, por certo, que ele sentisse a morte. Voltarei mais tarde, e, ento, liquidaremos as nossas contas.
    E o impiedoso assassino, deixando em paz o pastorzinho, seguiu jornada, pela longa estrada, para nunca mais voltar!
    
    
* * *
    
    
    Meus amigos, reparai bem.
    Quantas vezes, em meio do turbilho de vossa existncia, no ficastes, como o pastorzinho da lenda, adormecido  margem da grande estrada da Vida? E de vs tambm se aproximaram, em certos momentos, sem que pudsseis perceber a Fortuna, o Amor e a Morte...

















O PAI QUE CASOU CINCO FILHAS


N
a clebre e turbulenta cidade de Bagd  a dileta dos califas  Vivia outrora um negociante que se chamava Chebac, homem dotado de bom-senso e cuja vida era equilibrada e conduzida ao ritmo suave da honestidade tranqila.
    Esse bom mercador era vivo e tinha cinco graciosas filhas cujos nomes (se Allah quiser!) sero indicados no decorrer desta singular narrativa.
    O extraordinrio cuidado que Chebac dispensava  educao de suas filhas poderia merecer o excepcional qualificativo de al-monetib  vocbulo que os filsofos no sabem ( pena!) traduzir com verdadeira fidelidade. A sua ambio mxima, na vida, era v-las casadas, e vivendo em perfeita harmonia com os seus esposos. Que sonho mais radiante poderia iluminar a imaginao de um pai?
    Casar bem cinco filhas! Eis o grande e terrvel problema que o diligente mercador cumpria resolver, dentro de um prazo relativamente curto.
    Obter para uma filha um noivo desejvel e rico j  tarefa bastante delicada e difcil. Mas casar bem cinco filhas... S mesmo com o auxilio de Allah, o Altssimo, o nico, o Onipotente!
     Allahur Akbar!  exclamam os verdadeiros crentes.  Allahur Akbar quer dizer: Deus  grande! No deve haver na vida lugar para desnimo e fraquezas! O fraco  como o camelo atacado de congestes.
    Continuemos, porm, a histria.
    Quis a vontade do Onipotente que o mercador Chebac se sentisse obrigado, pelos seus deveres religiosos, a fazer uma peregrinao a Meca, a Cidade-Santa.
    Como partir para uma jornada to longa, durante a qual a fadiga, sendo imensa, ainda  menor do que o perigo, deixando as suas queridas filhas ao desamparo num centro populoso como a tumultuosa Bagd?
    Lev-las? Eis uma soluo que qualquer pasteleiro da aldeia repeliria sem hesitar um segundo.
    O deserto, como todos sabem,  infestado por bedunos ferozes que sonham com viagens impossveis.
    Sentindo-se embaraado, em dvida, sobre a melhor resoluo a tomar, o mercador achou que seria de bom-aviso ouvir a opinio de seu judicioso amigo Al-Tarik, que exercera o cargo de Primeiro-Conselheiro na Corte do saudoso califa Al-Mamum. Al-Tarik era um ulem, isto , um cheique dotado de notvel saber. (Allah, porm,  mais sbio). 
     O teu caso  muito srio, meu caro Chebac  respondeu o ulem.  No posso aconselhar que leve as tuas cinco filhas no meio da caravana; seria sacrific-las no deserto, fazendo-as, talvez, cair nas mos dos audaciosos bedunos traficantes de escravos, homens que so mais perigosos que o simum. Deix-las, porm, sozinhas em Bagd, no  medida que um rabe prudente e sensato possa aprovar. As sedues da cidade, e a perniciosa companhia dos maus, arrastam as jovens para o fundo dos abismos e dos erros mais degradantes.


     Ao chegar a casa reuniu as meninas e repetiu, com paternal carinho, para que elas 
     ouvissem, a fantasiosa histria das cinco prolas, salientando o 
     grave embarao em que se achava.
    
    E, depois de meditar algum tempo, disse o sbio Al-Tarik:
     S vejo, no momento, uma soluo, para o caso que se me afigura complicado. Quando chegares, hoje, a tua casa, dirs s tuas filhas o seguinte:  Minhas queridas meninas! O dever sagrado de crente obriga-me a fazer uma peregrinao  Meca, a cidade de Deus, o Santurio da F. Tenho, entretanto, cinco prolas que so para mim de inestimvel valor. No posso levar comigo esse tesouro, pois a jornada que vou empreender  longa e no isenta de graves riscos. Parece-me que no seria prudente deixar as preciosas prolas e partir; durante a minha ausncia, quem poder livr-las, como sempre tenho feito, da cobia insacivel dos aventureiros, rapinantes e ladres? Que devo, pois, fazer, nessa emergncia, minhas filhas? Ouvirs com a maior ateno todas as respostas das jovens. Interessa-me conhecer a opinio de cada uma delas. S ento poderei dar um conselho acertado e seguro sobre a melhor forma de resolver a dificuldade. Combinado? Uassal!
    O negociante fez precisamente como lhe havia aconselhado o discreto ulem.
    Ao chegar a casa reuniu as meninas e repetiu com paternal carinho, para que elas ouvissem a fantasiosa histria das cinco prolas, salientando o grave embarao em que se achava. E interpelou-as afinal:
     Que devo, pois, fazer, minhas filhas? 
    A mais velha, que se chamava Quetir (Quetir dos Olhos Verdes), assim falou:
     Acho, meu pai, que deveis vender as cinco prolas por bom preo e comprar um terreno em boas condies. O negcio ser altamente vantajoso e seguro. Durante a vossa ausncia o terreno ficar valorizado e poder ser vendido, mais tarde, com um bom lucro. O dinheiro ganho nessa transao ser, para o futuro, um descanso tranqilo para a vossa velhice, justa recompensa s vossas fadigas e trabalhos.
    Respondeu a segunda, a deliciosa e meiga Ahizil:
     Penso, meu pai, que seria mais prudente deixar as vossas prolas nas mos de um homem srio, honrado, que fosse de absoluta confiana. No possuis, meu pai, um amigo digno da vossa confiana? A boa amizade, para os ricos, serve de glria; para os pobres, de renda; para os desterrados, de ptria; para os fracos, de esforo; para os enfermos, de medicina; e at para os mortos, de vida! Confiai o vosso tesouro aos cuidados de vosso maior amigo!
    Amine, a terceira, convidada a falar, no hesitou. Em Amine, o principal trao de formosura era o sorriso de bondade e candura que bailava em seus lbios. Disse Amine:
     Se o dever religioso vos obriga, meu pai, a uma jornada, por que vos preocupais tanto com os bens materiais que nada valem? Confiai em Deus, meu pai! Allah pode ouvir as queixas surdas de nosso corao e ler os nossos desejos na cor invisvel de nossos pensamentos. Allah  poderoso,  justo, e sabe premiar, com infinita bondade, os crentes dedicados e sinceros! Esquecei as cinco prolas que no passam de um msero tesouro da terra, para pensar apenas nas cinco preces dirias que so os grandes tesouros do Cu. A orao, meu pai,  uma das expresses mais ntimas e delicadas da vida piedosa. Allahur Akbar! Deus  grande! Se colocardes Deus em tudo o que fizerdes encontr-lo-eis em tudo o que vos suceder.
    A formosa Astir, que admirava os poetas e sonhava com as coisas mais romnticas da vida, no soube conter os arroubos e fantasias de sua imaginao exaltada. Eis como Astir resolveria o caso:
     Tenho uma idia, meu pai, que parece genial. Com as cinco prolas fareis um lindo adereo, que ser, por vossas mos, entregue ao califa, nosso amo e senhor. O monarca surpreendido exclamar: Que belo diadema! E perguntar a razo de ser daquele rico presente. Direis ento:   rei poderoso, sombra de Allah na terra! Essas cinco prolas colhidas nos mares da Arbia, no passam de humilde homenagem de um pobre e esforado peregrino vivo, pai de cinco filhas solteiras. Esquecer o desvalor deste insignificante presente  a maior caridade que podeis fazer ao ofertante! Encantado com essa delicada resposta, to cheia de modstia, o califa, que  generoso e bom, dir, com toda certeza:  Se vais fazer uma peregrinao,  muulmano!, precisas, imediatamente, de um bom auxlio. E determinar que sejam postos  vossa disposio cinco mil dinares de ouro; uma caravana; dez cameleiros e cinco guardas bem armados. E o glorioso califa (que Allah o conserve!) acrescentar afinal:  Com os valiosos recursos que ponho agora  tua disposio,  peregrino, poders ir  Cidade Santa, levando, em tua companhia, as tuas cinco filhas, que devem ser lindas como a lua de Ramad1. Essa viagem, cheia de episdios, ser utilssima para elas! E assim, meu pai, iramos todos conhecer o Santurio 


1- Ramad  perodo do ano muulmano (28 dias) durante o qual o jejum  obrigatrio aos crentes do Isl. Esse jejum s deve durar entre o nascer e o por do Sol. Quando a Lua aparece no cu (lua-cheia) comeam logo as festas e banquetes. A lua de Ramad , por esse motivo, apontada como a lua mais linda do cu.
da F, a milagrosa Caaba, no corao do Isl1.
    A mais moa de todas, a encantadora Leil, compreendendo que chegara, enfim, a sua vez de falar, disse:
     Essa original histria, meu pai, das cinco prolas, que acabais de nos contar, no passa, a meu ver, de um smbolo muito bem-imaginado. s cinco prolas que afirmais possuir, somos ns, com certeza, as vossas filhas. Aconselha a prudncia que um pai no leve suas filhas moas a jornadear pelos caminhos inseguros dos desertos, infestados de chacais e aventureiros da pior espcie. Ao vosso corao, entretanto, no agrada deixar-nos sozinhos no burburinho desta Bagd. Se o problema  assim to grave, deveis, a meu ver, consultar os vossos amigos mais srios e judiciosos, antes de tomardes qualquer resoluo. Atentai, meu pai, nas palavras do filsofo: A perfeio moral consiste em fazermos por inspirao do amor o que faramos por exigncia do dever.

* * *
       
    O mercador foi ter novamente com o prudente Al-Tarik e repetiu-lhe fielmente as diversas respostas formuladas por suas filhas.
    Disse o judicioso e nobre ulem:
     Esse caso tornou-se interessantssimo e merece ser analisado com a maior ateno. Logo mais, depois da ltima prece, devo fazer, a pedido do califa, uma conferncia na mesquita. Nessa conferncia, que  destinada aos nobres e cheiques, vou tomar por tema os diversos aspectos sob os quais se apresentam as respostas de tuas filhas. Quero conhecer sobre o caso, a opinio dos homens mais cultos da cidade.
    A conferncia feita pelo ilustre Al-Tarik causou profunda impresso ao seu numeroso auditrio. No dia seguinte, na alta sociedade de Bagd, no se comentava outra coisa seno a situao complicada do mercador e a diversidade das originais sugestes formuladas pelas cinco jovens.
    E a palestra do sbio polemista teve, ainda, outras conseqncias mais interessantes que passaremos a relatar.
    Ao cair da tarde achava-se o bom Chebac trabalhando em sua loja, quando foi procurado por cinco rapazes, pertencentes s famlias mais ricas e prestigiosas da cidade.
    Intrigado com a inesperada visita dos nobres, o mercador perguntou-lhes o que desejavam.
    Ao ser interpelado, disse o primeiro cheique:
     Alimentei sempre a esperana de casar com uma jovem boa, sensata, e que tivesse uma compreenso clara, perfeita e prtica da vida. A vossa filha Quebir revelou, a meu ver, qualidades excepcionais. Aquela lembrana de vender as prolas e comprar um terreno  maravilhosa! Venho, portanto, pedi-la em casamento, pois  com uma mulher ajuizada e perita em transaes, que eu desejo vivamente casar.
    O segundo visitante, que era um dos rapazes mais brilhantes de Bagd, assim falou:
     Fui informado hoje da admirvel resposta proferida pela vossa filha Ahizil no caso das Cinco Prolas. Demonstrou ser uma jovem sensata e prudente. Sabe confiar naqueles que so dignos e repelir os perversos. Fez da verdadeira amizade o maior elogio que j ouvi. Essa jovem demonstrou possuir uma alma boa, lmpida, livre do peso das desconfianas torturantes que nublam os afetos e perturbam a vida. Venho, pois, pedir em casamento a vossa filha Ahizil.

1- Isl  significa resignao. Conjunto de pases cujos povos adotaram a religio de Mafoma. Caaba  um templo, de forma cbica, que  venerado em Meca.
    Aproximou-se o terceiro visitante e dirigindo-se ao mercador declarou o seguinte:
     O meu sonho dourado, senhor Chebac, era escolher, sem possibilidade de erro, uma esposa dotada de elevados sentimentos religiosos. Sou adepto da moral religiosa; a moral sem Deus  falsa e ridcula. A esposa religiosa , a meu ver, a esposa ideal. Virgem, esposa, me ou filha, a mulher religiosa  sempre um agente de Deus nas obras de Seu amor. Deus f-la blsamo de todas as dores, alvio de todas as tristezas, amparo de todas as desventuras, e no h uma s misria na vida de que Deus no tenha feito da mulher o anjo libertador. A vossa filha Amine, pela resposta que proferiu, demonstrou possuir um nobre corao e ser uma crente sincera. , pois, Amine que eu venho pedir em casamento. Queira Allah que ela possa ter por mim o mesmo e infinito amor que eu sinto, desde j, por ela.
    Antes que o bom Chebac pudesse despertar do assombro em que se achava, o quarto cheique, que era prosador e poeta, tomou da palavra e confessou sem mais prembulos:
     A vossa filha Astir,  mercador!,  um sonho de poeta que os gnios bondosos fizeram viver neste mundo. A sua imaginao prodigiosa deslumbrou-me; o seu talento incomparvel arrebatou o meu corao. Os atos do corao parecem ridculos quando  o esprito que os julga. Estou loucamente apaixonado por Astir e considerar-me-ia o mais feliz dos mortais se ela se dignasse aceitar-me por esposo!
    O quinto cheique aproximou-se do velho Chebac, fez um respeitoso sal1 e declarou, com voz firme e pausada:
     Todas as vossas filhas,  mercador!, revelaram possuir predicados excepcionais. As respostas que elas formularam, no caso das Cinco Prolas, dariam assunto para dez lindos poemas em prosa e verso. Leil, a mais moa, demonstrou, porm, ser a mais inteligente de todas, pois foi a nica que compreendeu o simbolismo do caso. A mulher inteligente, cordata e obediente (dizem os maiores filsofos)  a companheira ideal,  a esposa invejvel. A mulher perfeita, segundo ensina o Alcoro, deve possuir trs predicados, cinco virtudes e sete atributos. Os trs predicados so: bondade, inteligncia e beleza. Venho, pois, pedir em casamento a mo de vossa filha Leil, a criatura mais fina e mais espirituosa do mundo! Exaltado seja Allah, que criou a Mulher, a Beleza e o Amor!

* * *
                  
    Allahur Akbar! Foi assim que Chebac, o mercador, resolveu o complicadssimo problema das Cinco Prolas.
    Casou muito bem as suas filhas e partiu tranqilo, em meio de uma grande caravana de peregrinos, para ir beijar, como bom devoto, a pedra negra da Caaba, na Cidade Santa de Meca.
    E, dois anos depois, quando regressou a Bagd, veio encontrar as suas filhas diletas, vivendo felizes e radiantes com seus dedicados esposos: foi recebido, tambm, por cinco lindos netinhos que j exclamavam em rabe (parece incrvel!) estendendo, risonhos, os braos morenos:
     Jed! Jed! (Vov! Vov!).
    
1- Sal quer dizer paz.  a expresso de que se servem os rabes em suas saudaes.


    
A NOIVA DO CHEIQUE


N
o dia em que meu pai deliberou casar-me com o cheique Ornar Bahil, assaltou-me um desespero sem limites. Triste destino o de tornar-me esposa do homem mais odiento da cidade!
    A velha Zenuja, vendedora de perfumes, tintas e colares, que vinha diariamente ao nosso harm1, vendo-me aflita e chorosa, perguntou-me, penalizada, qual a causa daquela angstia que pesava sobre mim.
    Ao saber da triste verdade exclamou, exaltada:
     No  possvel, Jamile querida! Por Maom! No poders te casar com esse velho Bahil, feio e perverso! Seria um crime!
     Nada poders fazer em meu favor, Zenuja!  respondi, desolada.  Meu pai  teimoso e, alm do mais, conta desde j com o valioso dote que o cheique prometeu.
    Zenuja, depois de meditar um momento, perguntou-me muito sria:
     Dize-me uma coisa,  Jamile. O cheique j viu alguma vez o teu rosto mimoso?
     Nunca,  Zenuja! Nunca! Meu pai foi o nico homem que at hoje me viu de rosto descoberto.
    A velha fitando-me severa insistiu:
     S teu pai, menina? S teu pai? 
    Afligindo-me o remorso e o receio de ocultar a verdade balbuciei envergonhada:
     Meu pai e... aquele jovem mercador que viste h trs dias acenar para mim  entrada do cemitrio!
     Est bem Jamile! Pelas barbas do Profeta! Se assim  poderei salvar-te do cheique. Exijo apenas uma condio: Ficarei encarregada de preparar-te para a noite de teu casamento. Tranqiliza o teu namorado para que ele no faa alguma loucura e deixa o resto por minha conta.  E, sorrindo, cheia de orgulho, acrescentou:
     Estou certa de que o cheique ir desfazer o compromisso de casamento!
    Confiei cegamente na velha amiga e a ela entreguei a minha sorte. Preocupava-me, entretanto, de modo impressionante, o meu prximo casamento. Que artifcio iria empregar a astuciosa Zenuja para afugentar de mim o noivo detestvel?
    Informei, nessa mesma tarde, o meu namorado de tudo que se passava no harm e aguardei serenamente o dia indesejvel de minhas npcias.
           
* * *
           
    Nesse dia a nossa casa encheu-se de parentes e convidados. Do meu quarto ouvi as risadas dos amigos de meu pai que comentavam futilidades e relembravam as pequeninas intrigas da cidade.


1- Harm  Parte da habitao destinada exclusivamente s mulheres.
    Dezenas de amigas vieram admirar as peas mais ricas de meu enxoval, as rendas, as toalhas e os vus. As vizinhas, sempre indiscretas, bisbilhotavam tudo.
    A velha Zenuja, duas horas antes da cerimnia, apareceu no seu papel de encarregada da noiva. Vestiu-me uma camisa branca com pequeninas flores bordadas e uma graciosa melahfa de cor clara, que se prendia aos ombros por fitinhas cor-de-rosa. Zenuja teve, ainda, ao pentear-me, cuidados especiais, e em meus cabelos que, na vspera, tingira de castanho-escuro, colocou uma meherma de seda vermelha com barras brancas. O meu vestido azul-claro, com fios de ouro nas mangas e nas pontas da cambusa1 era, na verdade, encantador.
    A habilidosa Zenuja modificou, com uma tinta muito forte, a cor das minhas sobrancelhas; transformou os meus lbios em dois rubis nicos e tentadores; e, com um creme muito fino e perfumado, chegou a fazer-me morena como Ftima e muito mais belo do que eu era realmente.
    Ao ver-me, to formosa, ao espelho, exclamei:
     Pela glria do Profeta,  Zenuja! Este alindamento que a tua arte incomparvel me empresta ao rosto vai ser a causa de minha desgraa! O cheique ao ver-me assim ficar apaixonado e jamais querer deixar-me!
     Cala-te, menina! O teu nome  Jamile e Jamile significa beleza! Tens que parecer bela ao teu esposo, pois s assim poders ficar livre dele.
    Essa velha est louca, pensei, horrorizada. Julga afugentar um noivo enchendo de encantos a noiva desejada. Pobre de mim! Para que fui eu confiar nessa criatura sem senso nem critrio?
    A minha escrava predileta cantava, numa cadncia triste:
    
     Allah  grande! A menina vai casar... 
    O henn2  raro na casa da noiva... 
    A me saudosa deixa-se estar no tamen 
    E reza ao Profeta...
    
     Pra com essa cantoria!  gritou Zenuja, irritada.
    E com a ponta escura de um pequenino basto fez um sinal negro bem no meio de minha face direita. Era o ltimo retoque  maquilagem.

* * *
    
    Com o rosto coberto por um espesso vu fui levada  presena do cdi3 e das testemunhas.
    Realizado o casamento e proferidas as preces do ritual, o meu noivo conduziu-me aos aposentos que j estavam reservados.
    Notei que o cheique parecia dominado por uma ansiedade infinita, incalculvel. E era natural. Qual  o marido que no deseja ver o rosto encantador daquela que vai ser sua esposa?
       
       
       
1- Melahfa, pea do vesturio feminino de uso corrente em Marrocos.  uma espcie de corpinho. Meherma, vu muito fino que as Jovens adotam para prender o cabelo. Cambusa, espcie de saiote que fica sob o vestido com a barra aparecendo.
2- Henn  substancia empregada para pintar as plpebras e as sobrancelhas; tamen, varanda da casa.
3- Cdi  Juiz entre os muulmanos. Julga, em geral, todas as causas de direito civil, criminal e religioso.
    Ao erguer o vu o cheique ficou trmulo, tomado de indizvel espanto. O meu semblante, que a velha Zenuja tanto aformoseara, parecia causar-lhe uma impresso terrvel e dolorosa.
     Por Allah!  vociferou cheio de incontida clera.  Teu pai garantiu-me que no eras trigueira e que os teus cabelos eram castanhos-claros!  horrvel! Vejo que s muito diferente daquela que eu imaginava!
    E, arrebatado por um rancor inexplicvel, exclamou como louco:
     Oh! Jamile! Nosso casamento  impossvel! Eu te repudio trs vezes!1

       
 Oh! Jamile! O nosso casamento  impossvel! Eu te repudio trs vezes!
    
    Com essa terrvel declarao o meu tresloucado marido desfazia, para sempre, o nosso casamento e tornava-me livre, no podendo mais exigir a restituio do dote que j havia pago a meu pai.
    A velha Zenuja no pde receber de mim os agradecimentos do que se fizera merecedora, pois, apareceu morta, no dia seguinte, sob as tamareiras do osis de Asbor.
    Trs meses depois, passada a impresso causada pelo escndalo do meu divrcio, casei-me com o jovem mercador que o meu corao elegera para meu esposo.
       
       
1- Segundo as instituies muulmanas, quando um marido repudia a esposa uma ou duas vezes, pode recuper-la, sem mais formalidades, ao fim de trs meses e dez dias; quando, porm, o repdio  feito pela terceira vez, ou mediante a frmula:  Eu te repudio trs vezes  o casamento est definitivamente rompido e o ex-marido no pode contrair novo casamento com a mesma mulher, seno depois de se ter ela casado com outro homem e pelo novo marido ter sido, igualmente, repudiada.
    Um dia meu pai perguntou-me:
     Que idia foi aquela, minha filha, de fazeres-te, na noite de teu casamento, parecida com Zobeida, a primeira esposa do cheique? No sabias, ento, que ele, preso por um juramento, estava impedido de casar-se com mulher que se parecesse com Zobeida?
    Essa pergunta veio esclarecer, para mim, o misterioso episdio do meu divrcio. A velha Zenuja conhecia o segredo do cheique e valeu-se disso para salvar-me.
    E ainda hoje, nas preces que fao, rogo ao Altssimo que tenha em sua eterna paz a bondosa e fiel Zenuja, minha amiga e salvadora.
    Uassal!



















O TEMPO PASSA 
(Lenda japonesa)
    
T
odos os deuses notaram, naquele dia, que Izanaghi, o Stimo, preparava-se para partir em companhia de sua adorvel esposa Izanami1. Kuni-toko-datis, o Primeiro, senhor do Cu e da Luz, indagou, apreensivo:
     Pela suprema Vontade,  Izanaghi!, para onde pretendes partir com a tua formosa companheira?
    Respondeu Izanaghi:
     Quero observar como vivem, na Terra, os homens  esses seres inferiores, criados pela infinita bondade dos deuses. Minha esposa deseja auxiliar os mortais e torn-los felizes.  por isso que partimos.
    Kuni-satsu-tsu o Segundo, o eterno defensor da Justia, observou:
     No vos esqueais, ao julgar os homens, que a indulgncia faz parte da Justia.
     Ensinai aos mortais  acrescentou Toio-Munon-Su, o Terceiro  que o desespero  o maior dos erros.
    Os outros trs deuses, Wan-hri-su, Oototsi e Omotaron, nada disseram. Que poderiam eles aconselhar ao poderoso Izanaghi, o mais sbio dos deuses?

* * *
    
    Izanaghi e sua esposa Izanami desceram  Terra e foram ter  ilha de Awadsi. Essa ilha, protegida pelos famosos rochedos de Sikoff,  um dos recantos mais belos do mundo.
    Que felicidade para os homens poderia advir da presena dos deuses entre as montanhas de Awadsi?
    Izanami disse ao seu esposo:
     Os mortais so simples e bondosos; souberam receber-nos com alegria e afeto. Acha que merecem recompensa.
     Que desejas fazer, querida?  indagou Izanaghi  em benefcio dos homens?
    A deusa respondeu:
     J pude observar que o grande terror de todas as criaturas  a morte. No h um s homem que no se encha de angstia e pavor, ao ver chegar o termo de seus dias. E a morte  conseqncia fatal do tempo. Faamos, pois, para a felicidade da Terra, que o tempo no passe mais para os homens, embora continue a passar para os outros seres que povoam o Universo.
     Est bem, querida  respondeu Izanaghi  Assim farei. Deste momento em diante, o tempo no mais passara para os homens.  Ficaro todos  exatamente como esto e
    
    
1- Izanami  Todos os deuses citados nesta lenda, faziam parte da mitologia dos primitivos habitantes do Japo. Vide A. Humbert  Le Japon.
permanecero, assim, inalterveis, numa existncia tranqila e feliz.
    Izanaghi e Izanami continuaram a viver sob cu de Awadsi, entre os rochedos de Sikoff.

    
 Est bem, querida  respondeu Izanaghi  Assim farei. Deste momento em diante, o tempo no mais passara para os homens.  Ficaro todos  exatamente como esto e permanecero, assim, inalterveis, numa existncia tranqila e feliz.
    
* * *
    
    Um dia, afinal, foram os deuses despertados por estranho rumor. Grande multido, em atitude de protesto, rodeava o palcio.
     Que deseja essa gente?  indagou Izanaghi.
    Os jovens e adolescentes disseram:
     Senhor! A vossa deciso sobre o tempo foi, para ns, um castigo tremendo. Se o tempo no passar, jamais chegaremos a viver. Queremos que o tempo passe, para que possamos chegar  idade de casar, constituir famlia  realizar, enfim, a nossa misso na vida e dela tirar a nossa parcela de felicidade! Que adianta viver sem sentir passar a vida?
    Os homens de meia-idade tambm falaram ao Stimo Deus:
     O tempo, senhor, continua impassvel para ns! Como  triste e montona a vida que no passa! Queremos ver o perpassar dos dias, pois alimentamos a ambio de apreciar os nossos filhos crescidos, trabalhando felizes ao nosso lado!
     Tambm ns, senhor!  acudiram os velhos  desejamos que o tempo passe.  Torturados pelos achaques de nossa idade, que pode valer a vida para ns? A nossa felicidade  o reflexo da felicidade daqueles que amamos. Queremos que o tempo passe, pois s o passar do tempo far a alegria de nossos filhos e de nossos netos!
    Arrebatado pelo desespero (que  o maior dos erros) Izanaghi esqueceu-se de que a indulgncia faz parte da justia. Tomado de vivo rancor contra os homens rebeldes, exclamou:
     Insensatos! Quereis que o tempo passe para que possais viver cada momento iludidos pelas falazes esperanas do futuro! A lembrana bondosa de minha esposa foi repelida pela ingratido que vive em vossos coraes. Quereis que o tempo passe? Pois bem, o tempo passar!
    E rematou:
     Mas o passar do tempo ser sempre ao contrrio de vossos desejos, ao arrepio de vossas aspiraes. Ser rpido e fugaz nas horas felizes e lento, muito lento, nos perodos de dor e tristeza.
    E o castigo dos deuses caiu impiedoso sobre os homens.
    O tempo passa  esse foi o desejo de todos; passa, entretanto, clebre e fugidio nas horas de alegria e felicidade; vagaroso, tardo e torturante nos minutos infindveis de angstia e sofrimento.















O AMOR E O VELHO BARQUEIRO


C
hegando, afinal,  margem do grande rio, o Amor avistou trs barqueiros que se achavam indolentes, recostados nas pedras.
    Dirigiu-se ao primeiro:  Queres, meu bom amigo, levar-me para a outra margem do rio?
    Respondeu o interpelado, com voz triste, cheio de angstia:
     No posso, menino!  impossvel para mim!
    O Amor recorreu, ento, ao segundo barqueiro, que se divertia em atirar pedrinhas no seio tumultuoso da correnteza.
     No. No posso  recusou secamente. 
    O terceiro e ltimo barqueiro que parecia o mais velho, no esperou que o Amor viesse pedir-lhe auxlio. Levantou-se, tranqilo, e, estendendo-lhe, bondoso, a larga mo forte, disse-lhe:
     Vem comigo, menino! Levo-te sem demora para o outro lado.
    Em meio da travessia, notando o Amor a segurana com que o velho barqueiro barquejava, perguntou-lhe:
     Quem s tu? Quem so aqueles dois que se recusaram a atender ao meu pedido?
     Menino  respondeu, paciente, o bom remador  o primeiro  o Sofrimento; o segundo  o Desprezo. Bem sabes que o Sofrimento e o Desprezo no fazem passar o Amor!
     E tu, quem s, afinal?
     Eu sou o Tempo, meu filho  atalhou o velho barqueiro.  Aprende para sempre a grande verdade. S o Tempo  que faz passar o Amor!
    E continuou a remar, numa cadncia certa, como se o movimento de seus braos possantes fosse regulado por um pndulo invisvel e eterno.
    Sofrimento, desprezo... Que importa tudo isso ao corao apaixonado? O Tempo, e s o Tempo,  que faz passar o Amor.






HOMENS  EXTRAORDINRIOS
    
N
a gloriosa cidade de Bagd - a prola do Isl  vivia a jovem Arusa, uma menina que, na opinio dos poetas de seu tempo, era mais linda e mais encantadora do que a quarta lua do ms de Ramad.
    Raras vezes saiu Arusa do grande serralho do pai, onde vivia como prisioneira, vigiada por eunucos impiedosos, de rostos macilentos e olhos empapuados. Graas, porm, aos bons ofcios de uma velha intrigante  que a pretexto de negociar em vus se metia em todos os harns  a formosa menina travou relaes com um jovem bagdali chamado Chafik e com ele mantinha constante e secreta correspondncia.
    O pai de Arusa, na ignorncia completa das inclinaes amorosas da filha, resolveu d-la em casamento a um rico cheique chamado Hamed Khamil, homem generoso e nobre, que oferecera pela mo da graciosa menina um dote de vinte camelos e dez mil dinares.
    Quando Arusa foi informada de que o pai, movido por odiosa ambio, pretendia cas-la com outro homem  separando-a para sempre do seu apaixonado Chafik  tamanho desespero a invadiu que chegou a desmaiar. Muitos dias passou fechada em seus aposentos, triste e abatida, sem subir ao terrao em que  tarde galeava as suas graas para encanto de todos os olhares. Com o indispensvel auxlio da ardilosa anci, conseguiu a jovem encontrar-se, em rpida entrevista, com o seu namorado, a quem contou a desventura que os ameaava se, na verdade, o Gnio da Separao estendesse sobre eles a sua asa negra, partindo-lhes o lao de to pura afeio.
    No vale a pena descrever o eloqente desespero do nosso heri bagdali, ao saber que pretendiam atirar a sua Arusa para os braos de um muulmano rico, velho amigo do cdi e homem cheio de prestgio na corte do califa Harum al-Raschid.
     Que infeliz que sou! - deplorava o mancebo.  Como poderei arrancar-te impunemente das garras desse homem que tem o ouro e o poder nas mos?
     No te preocupes com a minha sorte  disse-lhe, carinhosamente, a linda menina, procurando consol-lo.  Nem tudo est perdido. Allah  grande! No dia do meu casamento fugirei da casa de meu marido e juntos iremos para onde ningum nos possa encontrar.
    Diante de tal promessa, acalmou-se o arrebatado Chafik, vendo desanuviar-se o seu sonho de amor, e esperou o dia em que Arusa deveria desposar o seu invencvel rival.
    Alguns meses depois, com inexcedvel pompa, realizou-se o brilhante casamento da formosa Arusa com o rico Hamed Khamil. O suntuoso palcio encheu-se de convivas e to grande foi a concorrncia de amigos, parentes e admiradores que a noiva rodeada sempre pelas esposas e companheiras, no encontrou ensejo para a almejada fuga.
    J bem adiantada ia a noite, quando o ltimo convidado deixou o palcio dos recm-casados. Hamed Khamil tomou delicadamente a esposa pela mo e conduziu-a aos seus luxuosos aposentos; a, pediu-lhe que erguesse o vu e o deixasse ver, pela primeira vez, o rosto em que as graas se esmeraram em profusos dons.
    Quando Arusa retirou o vu, Hamed Khamil ficou deslumbrado. No poderia imaginar que a esposa fosse to linda, to sedutora. Louvado seja Allah, o Exaltado, que soube reunir tantas graas em dois flgidos olhos, tanta beleza e harmonia na curvatura dos lbios rubros!
    Grande, porm, foi a surpresa do rico Khamil, quando notou que Arusa parecia muito triste e dominada por infinito desgosto. E como no peito se lhe acendesse, desde logo, grande paixo pela jovem, ficou apreensivo por v-la to acabrunhada e perguntou-lhe:
     Por que ests to pesarosa? No foi por tua vontade que casaste comigo? Vamos, conta-me,  Flor do Isl, o motivo da mgoa que de to quentes lgrimas enche os teus lindos olhos!
    Arusa, sem poder j reprimir os seus sentimentos, contou quele que acabava de ser seu esposo toda a verdade, sobre o seu antigo namoro, e relatou-lhe, minuciosamente, a combinao estranha que fizera com seu apaixonado, para fugir daquela casa, no prprio dia das npcias.
     Desgraadamente, porm  soluava a jovem  no me foi possvel efetuar qualquer plano de fuga e vou, por isso, deixar de cumprir a palavra que dei ao noivo de meu corao.
     Pelo manto do Profeta!  exclamou o marido.  No seja isto motivo para to grande mgoa. No quero servir de empecilho  realizao de teus projetos e no posso obrigar-te a quebrar um juramento. J que prometeste, vais cumprir fielmente a tua louca promessa!
    E o rico Khamil, com grande serenidade, tomou novamente pela mo a linda esposa, levou-a atravs de longos corredores at  porta que dava sada para um lano deserto da rua e disse-lhe, delicadamente:
     s livre, completamente livre,  filha de meu tio.1 Podes partir. Irs para a companhia de teu namorado e com ele poders ficar o tempo que quiseres. Se algum dia te arrependeres do passo que hoje ds, poders voltar sem receio para a minha companhia, pois s, pela vontade de Allah, a minha esposa legtima e inspiras-me grande e puro amor!
    A jovem noiva mal podia disfarar o espanto que a dominava. Custava-lhe acreditar na sinceridade do marido. A princpio julgou que o nobre Khamil estivesse a gracejar. Depressa, porm, se convenceu de que o rico cheique nunca falara to srio e lhe concedia estranha e inteira liberdade, permitindo que ela fosse, naquela mesma noite, para onde muito bem lhe aprouvesse.
    Depois de agradecer a generosidade do esposo, a apaixonada Arusa partiu, apressada, pela rua escura e silenciosa, no fim da qual ficava a casa do namorado.
    Diz, porm, o velho provrbio rabe, que tem passado de gerao em gerao, atravs dos sculos: A imprudncia  irm do arrependimento.
    Mal a jovem se havia afastado da casa do marido, foi surpreendida por audacioso ladro, que, oculto num vo de muro, esperava certamente pelo momento propcio a algum ataque.
     Pelas barbas de Omar!  murmurou o beduno.  Parece-me que vejo, ali sozinha, uma mulher ricamente trajada! Se no me iludo, ela traz muitas jias! Positivamente estou hoje muito feliz!
    E o salteador, que era um desses terrveis nmades do deserto, surgindo pela frente de Arusa, intimou-a a parar imediatamente,  e ameaando-a  com um punhal, ia despoj-la das 


1- O rabe denomina a prpria esposa de filha de meu tio.
ricas jias de noivado quando notou que a mulher que assaltava era uma encantadora menina, linda como uma das quarenta mil huris que povoam o Cu de Allah!
     Que ventura a minha  pensou o ousado beduno.  Encontrar uma formosa donzela coberta de preciosos adornos! Vou rapt-la e lev-la sem perda de tempo para a minha tenda no deserto.
    Veio-lhe, entretanto, o desejo de saber por que motivo se encontrava aquela deidade perdida em hora to tardia, a caminhar sozinha pelas ruas mais perigosas da cidade.
    Interrogada pelo facnora, a jovem contou-lhe o que havia ocorrido, o seu plano de fuga, o seu desespero, repetindo-lhe finalmente as palavras de seu generoso marido.
     Mac Allah!  exclamou o ladro  posso garantir que o teu marido  um homem extraordinrio! No  possvel admitir-se que haja no mundo outro filho de Ado capaz de proceder do mesmo modo na noite do casamento!
    Depois de pequena pausa, o beduno ajuntou:
     Eu, porm, quero provar, de modo expressivo, que sou um homem mais extraordinrio ainda do que o teu espantoso marido. Sabes por que? Poderia, neste momento, entregue e abandonada, como ests, ao meu capricho, poderia, repito, despojar-te de tuas riqussimas jias e raptar-te, levando-te para a minha tenda. Tal, porm, no ser a minha forma de proceder. Ao contrrio. Vou conduzir-te, com toda segurana, at a casa de teu namorado. No quero que continues sozinha o teu percurso, pois algum sacripanta ou aventureiro sem alma poderia fazer-te grande mal!
    E, isto dizendo, o ladro acompanhou a jovem at  casa de Chafik, e s se afastou depois de a ter visto entrar na residncia do namorado.
    Seria difcil, seno impossvel, descrever todas as mostras de alegria, todo o arrebatamento do apaixonado Chafik ao ver chegar a sua amada, em exato cumprimento de to bela promessa de amor.
     Louvado seja Allah, o Clemente!  exclamou, abraando a jovem.  Conseguiste, enfim, iludir o teu ciumento marido? Conta-me tudo o que se passou, pois estou ansioso por conhecer as peripcias de tua fuga!
     Muito te enganas,  Chafik  retorquiu a jovem.  No iludi meu marido e no seria possvel ludibriar um homem to generoso e inteligente. Se aqui vim ter a esta hora, foi unicamente porque ele prprio assim o quis!
    E a encantadora Arusa relatou ao namorado tudo o que se passara, repetindo-lhe fielmente as palavras do marido, e narrando-lhe tambm, sem nada ocultar, a singular aventura ocorrida com o beduno ladro que a surpreendera sozinha em rua deserta e escura.
     Quero crer, minha querida, que o teu marido  um homem extraordinrio  confessou Chafik.  Estou certo de que no haver no mundo de Allah outro marido que proceda como ele procedeu!  evidente, porm, que o ladro que encontraste casualmente no caminho  ainda mais extraordinrio do que o teu marido! Quero, entretanto, provar que sou um homem mil vezes mais extraordinrio do que ambos!
    E, como a jovem o fitasse surpreendida, sem compreender o sentido de tais palavras, Chafik prosseguiu:
     Bem sabes quanto te amo. Bem conheces a ansiedade com que, h mais de dois anos, eu contava os dias  espera deste dia venturoso! Bem podes avaliar o meu tormento, vendo-te casada com outro! Pois bem: apesar de tudo, vou levar-te, agora mesmo,  casa de teu marido e entregar-te quele meu odiento rival!
    E isto dizendo, tomou-a nos braos fortes e, carregando-a como a uma criana, encaminhou-se pela rua extensa que ia ter ao palcio do rico cheique Hamed Khamil...
    
    
    
    
    
    
     
    
    
    
    
    
    
    
    
    



A ESPOSA E A MORTE
    
    
N
a pequena aldeia Bhir, na ndia, a encantadora Sanand era citada como uma das cinco maravilhas da terra. Tinha dezoito anos, pertencia  casta dos brmanes1 e conservava-se solteira.
    O velho Malua, seu pai, chamou-a um dia e disse-lhe:
     Querida Sanand! Bem sei que tens no ombro direito o sinal eterno de Siva, mas apesar disso, sinto-me preocupado com o teu futuro. Todas as tuas amigas e companheiras casaram aos oito anos e tu ainda no escolheste marido.  foroso que te resolvas, o mais cedo possvel, a tomar estado.
    Respondeu Sanand:
     Trs so, meu pai, os que me pretendem para esposa; Sardu, o belo mercador de Calcut; Sivala, o rico e generoso senhor de Tandjor, e o inteligente Niassin, que construiu o templo de Bajapor. Asseguro que hesito, apenas por me sentir receiosa ante as incertezas do futuro. Com qual dos trs serei realmente feliz?
     Minha filha  volveu, tranqilo, o velho brmane  no h motivos para dvidas e hesitaes. Conheo um sbio faquir que l o futuro de qualquer pessoa. Tenho motivos para exigir tudo desse iogue2, pois o livrei de morrer sob as garras de um tigre. Esse bom goru3  um santo e faz prodgios. Vou pedir-lhe que leia o teu futuro. Queres conhecer a sentena do iogue?
     Quero ouvi-lo, meu pai!

* * *
    
    Duas semanas depois chegou a Bhir o milagroso iogue que sabia ler na areia o kismet de qualquer mortal.
    Sanand trouxe-lhe um espelho redondo sobre cuja superfcie polida o santo gora espalhou vagarosamente um punhado de areia branca e fina, que dizia ter sido colhida nas nascentes do Ganges, o rio sagrado. Sobre a leve camada de areia escreveu os nomes dos trs jovens que pretendiam a mo da graciosa menina. Agitou depois o espelho, batendo nele onze vezes com as pontas dos dedos e pronunciando certas palavras mgicas.
    

1- Brmane  o povo hindu  dividido em castas que vivem completamente separadas; no se admite, por exemplo, o casamento entre indivduos de castas diferentes. Este sistema de distines sociais funda-se, em parte, na diversidade de raas e, de certo modo, na natureza das profisses. As quatro mais importantes so: os Brmanes (sacerdotes); os Chtrias (militares); os Vaicias (negociantes) e os Sudras (operrios e servos domsticos). Alm dessas quatro castas h uma infinidade de subcastas. Uma das castas mais nfimas (mas no a mais nfima)  a dos prias.
2- Iogue  Indivduo j iniciado nas grandes verdades filosficas. Esprito adiantado.
3- Goru  Iluminado. Indivduo capaz de atingir a um perfeito desenvolvimento espiritual.
    A curiosidade de Sanand era, nesse momento, sem limites.
    Por fim, o iogue falou:
     Sardu, o mercador, pretende a tua mo de esposa. Se o aceitares para marido sers muito feliz durante trs anos e trs meses. Findo este prazo, Sardu, arrastado pelo seu esprito inquieto e volvel, comear a ser infiel ao seu amor conjugal. E vivers, ento, menina, muitos anos atormentada por um cime negro e torturante.
     No me convm essa vida!  afirmou logo Sanand.  Quero ter a meu lado um marido para sempre dedicado e fiel.
     Com Sivala, o rico proprietrio  prosseguiu o iogue  o teu destino ser completamente diverso. Vivers muito feliz durante dois anos e dois meses. Terminado esse perodo, o teu marido ser tomado de grande paixo pela caa, e passar a viver nos juncais sombrios, preocupado com os laos e as armadilhas. Esquecido, por completo, do amor de sua esposa, o valente caador s ter atenes para tigres e panteras...
     Detesto os homens indiferentes ao amor  replicou Sanand.  Sonho com um companheiro que viva s para mim, que seja escravo de meus carinhos. No quero ser esposa de Sivala!
     Resta-me, ainda  continuou o iogue  descrever a vida que ters como esposa de Niassin, o arquiteto. Casando com esse jovem ters sempre a teu lado um marido carinhoso, fiel e apaixonado. Durante um ano e um ms a tua existncia ser ditosa e invejvel. Passado esse breve lapso de tempo, o teu marido ser arrebatado pela Morte, e ters, ao perd-lo, o corao despedaado pela dor e pela saudade!
     Quero casar com Niassin!  exclamou, arrebatada, a bela Sanand.
    O judicioso Malua, que tudo ouvira em silncio, no se conteve:
     A tua deciso  quase uma loucura, minha filha! Medita um instante sobre o destino que te aguarda. Sers, certamente, mais feliz com Sardu, ou com Sivala, do que com aquele que impensadamente escolheste. Esposa de Niassin, que ters afinal? Pouco mais de dez meses de felicidade, e a seguir muitos anos esmagada por uma torturante e interminvel viuvez! Procura ser sensata e razovel minha filha!
     No, meu pai  discordou a jovem.  J escolhi definitivamente o caminho a seguir. Prefiro a viuvez irremedivel  infidelidade ou  indiferena do homem que soube conquistar o meu corao. Sinto-me apaixonada por Niassin e quero casar com ele. Peo, apenas, segredo absoluto para o meu caso e que a sentena proferida pelo iogue no chegue, de modo algum, ao conhecimento do meu noivo.
     Seja pois esse o teu kismet1,  encantadora Sanand!

* * *
    
    Dias depois realizou-se o casamento de Sanand com Niassin. Dizem os poetas que at hoje, na ndia, no houve dois esposos to felizes e apaixonados.
    Na noite em que terminava o prazo fixado pelo iogue, a jovem Sanand deixou-se ficar de viglia na varanda de sua casa. E eis que v surgir, como uma sombra, a figura inconfundvel de Sennia, o Anjo da Morte2.
     Que desejas aqui, impiedoso Sennia?  perguntou Sanand, dirigindo-se impvida ao mensageiro de Iama, o Deus dos Infernos.


1- Kismet  O destino. Corresponde ao maktub dos rabes. Fatalidade.
2- Sennia   um dos auxiliares de lama, o dcimo primeiro deus da mitologia hindu.

    O Anjo da Morte, erguendo o vu que lhe cobria o rosto formoso, respondeu, sereno:
      Venho buscar o teu marido,  bondosa e querida Sanand! A vida de Niassin, neste mundo, deve terminar hoje! Assim quis o Destino e lama ordenou-me que executasse a sentena.
    
     A vida de Niassin, neste mundo, deve terminar hoje! Assim quis o Destino e lama ordenou-me que executasse a sentena.
    
     Escuta, sedutor Sennia  retorquiu Sanand.  Quando eu era pequenina, minha me deixou-me, certa vez, adormecida sobre um gramado, perto de nossa casa. O Touro Sagrado, ao sair do templo, na direo do pasto, passou sobre o meu corpo e pisou-me o brao. Conservo at hoje, junto ao ombro direito a marca de sua pata divina. Tenho, pois, o direito (por ter sido pisada pelo Touro Sagrado) de fazer um pedido ao enviado de Iama!
     Tens razo. Sanand  respondeu o Anjo da Morte.  O Touro Sagrado concedeu-te esse grande privilgio. Podes pedir o que quiseres, exceto a vida de teu marido.
     Quero,  poderoso Sennia!  declarou Sanand  ter um filho aos trinta anos de idade!
    Respondeu o Anjo da Morte:
     O teu pedido, menina,  sagrado, e sers atendida. Ters como desejas, um filho aos trinta e dois anos de idade!
    E acrescentou:
     Vou agora buscar Niassin, o teu esposo!
     Espera, Sennia!  interveio com energia Sanand.  Que vais fazer? Esqueceste de que eu perteno  casta dos brmanes. Uma mulher de minha casta (bem o sabes!) quando perde o marido no pode casar com outro homem. Como queres que eu tenha um filho aos trinta e dois anos, se pretendes arrebatar-me Niassin e condenar-me  eterna viuvez!
    Sennia, o Anjo da Morte, mensageiro de lama, vencido pelo estratagema de Sanand, viu-se forado a partir, deixando em paz os dois esposos felizes.
    Na ndia, os velhos brmanes, quando, repetem a singular histria de amor de Sanand, acrescentam, com a sabedoria dos vedas:
     A mulher apaixonada, para salvar o homem que ama  capaz de enganar a prpria Morte!






DUAS TENDAS DO DESERTO
    
    
P
erdido de meus companheiros  contava-me um rabe em Medina  caminhava um dia, sem rumo, pelo deserto, quando avistei uma grande tenda, junto da qual estava uma jovem muulmana com o rosto velado por espesso vu.
    Mal pousara em mim seus olhos negros e vivos, exclamou:
     A paz seja contigo,  irmo dos rabes! Que procuras pelos caminhos de Allah?
    Contei-lhe, em poucas palavras o que me acontecera e a razo por que me encontrava a vagar desnorteado pelo deserto, concluindo a minha narrativa com os versos famosos de Khyym:
     E neste infortnio,  formosa filha de Eva! A vagar, sem destino, tenho duas companheiras: a Fome e a Sede!
     Se assim   volveu, bondosa, a rapariga  sers meu hspede nesta tenda!
    E pediu-me que descesse do cavalo e descansasse um pouco, enquanto ia preparar-me um saboroso manjar.
    To meiga era a voz daquela boa criatura, to amvel a sua maneira de falar, que no hesitei em aceitar o convite e apeei do cavalo junto  tenda. Momentos depois surgiu-me a jovem, trazendo, num prato finssimo, um po delicioso, feito de trigo e de mel.
    Graas  bondade da minha afvel hospedeira, pude saciar a fome que j me atormentava, e beber, com grande satisfao, alguns goles de gua pura e fresca.
    No me esqueci de agradecer ao Altssimo a merc que me proporcionara, conduzindo-me os passos at quela sombra acolhedora; e, fora da tenda junto a um velho coqueiro, sob os olhares da jovem que no me desfitava, murmurei:
     Louvado seja Allah que fez nascer a bondade e o carinho no corao das mulheres!
    E era minha inteno descansar mais algum tempo naquele aprazvel lugar quando surgiu de repente, vindo no sei de onde, um homem de m catadura, com modos abrutalhados de salteador. Era o marido d jovem e o dono da tenda.
    Ao notar a minha presena, interpelou logo a esposa:
     Quem  esse homem? Que faz aqui?
      um hspede  replicou a rapariga.
     No quero saber de hspede!  replicou, com azedume.  Enxota-o j daqui, antes que eu perca a pacincia!
    Ao ouvir tal ameaa, montei a cavalo e fugi, a galope, daquele exaltado muulmano!
    Depois de caminhar muitas horas sem parar, cheguei, finalmente, perto de outra tenda que parecia maior e mais rica do que a primeira.
    Uma mulher que se detinha junto  porta perguntou-me com visvel rispidez?
     Quem s? Que desejas?
    Contei-lhe que era um viajante transviado pelo deserto e pedi-lhe que me desse um pouco dgua, algumas tmaras e uma cdea de po.
     Em minha tenda no h lugar para hspedes  atalhou logo.  Detesto chacais que nos importunam implorando gua e po!
     
      Uma mulher que se detinha junto  porta, perguntou-me, com visvel rispidez:  Quem s? Que desejas?
    
    Surpreendido por to grosseiras e impiedosas palavras (Allah se compadea daquela mulher), j ia afastar-me, quando surgiu por detrs da tenda um homem, de fisionomia bondosa, ricamente trajado. Era o marido daquela m criatura e o dono da tenda.
    O cheique, aproximando-se de mim, estendeu-me amavelmente a mo:
     Bem-vindo sejas,  desafortunado amigo! Sers meu hspede e aqui ters po, gua e boa sombra.
    E fz-me apear do cavalo, convidando-me a entrar em sua tenda, e foi ele prprio quem me trouxe saborosas frutas e doces secos.
    Achei graa  maneira como essa segunda acolhida contrastava com a primeira, inclusive a alternao de sentimentos dos dois casais, e pus-me a rir gostosamente.
     De que te ris?  perguntou ele.
    Contei-lhe, sem nada ocultar, o que me havia acontecido na primeira tenda: a mulher me recebera bem, ao passo que o marido s tivera para mim palavras maldosas, cheias de rancor. E que o contrrio, exatamente, sucedia ento: a mulher me recebera mal e o marido fora para mim de uma bondade cativante e sem limites!
     No lhe vejo motivo para admirao ou riso  respondeu-lhe o meu bom hospedeiro.  At  bem natural que assim haja sucedido!
    E como eu o fitasse muito admirado, ele acrescentou:
     Aquela mulher que te acolheu, na primeira tenda,  minha irm, ao passo que o seu marido  irmo de minha mulher!
    E concluiu, em voz baixa:
     Quantos lares h, pelo mundo, meu amigo, que so exatamente como as duas tendas que encontraste no deserto!









UMA FBULA SOBRE A FBULA
(Lenda Oriental)
    
A
LLAHUR Akbar! Allahur Akbar!1
    Quando Deus criou a mulher criou tambm a Fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palcio. E havia de ser o prprio palcio em que morava o sulto Harun Al-Raschid.
    Envoltas as lindas formas num vu claro e transparente, foi ela bater  porta do rico palcio em que vivia o glorioso senhor das terras muulmanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
     Quem s
     Sou a Verdade!  respondeu ela, com voz firme.  Quero falar ao vosso amo e senhor, o sulto Harun Al-Raschid, o Cheique do Isl!
    O chefe dos guardas, zeloso da segurana do palcio, apressou-se em levar a nova ao gro-vizir:
     Senhor,  disse, inclinando-se humilde,  uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sulto Harun Al-Raschid, Prncipe dos Crentes.
     Como se chama?
     Chama-se a Verdade!
     A Verdade  exclamou o gro-vizir, subitamente assaltado de grande espanto.  A Verdade quer penetrar neste palcio! No! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos ns, se a Verdade aqui entrasse? A perdio, a desgraa nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, no entra aqui!
    Voltou o chefe dos guardas com o recado do gro-vizir e disse  Verdade:
     No podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impudicos no poders ir  presena do Prncipe dos Crentes, o nosso glorioso sulto Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!
    Vendo que no conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palcio do magnnimo sulto Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam  difana formosura!
    Mas...
    Allahur Akbar! Allahur Akbar!
    Quando Deus criou a mulher, criou tambm a Obstinao. E a Verdade continuou a alimentar o propsito de visitar um grande palcio. E havia de ser o prprio palcio em que morava o sulto Harun Al-Raschid...
    Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater  porta do suntuoso palcio em que vivia o glorioso senhor das terras muulmanas.
    
    
1- Deus  grande! Deus  grande!
    Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
     Quem s?
     Sou a Acusao!  respondeu ela, em tom severo.  Quero falar ao vosso amo e senhor, o sulto Harun Al-Raschid. Comendador dos Crentes.
    O chefe dos guardas, zeloso da segurana do palcio, correu a entender-se com o gro-vizir.
     Senhor  disse, inclinando-se humilde,  uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sulto Harun Al-Raschid.
     Como se chama?
     A Acusao!
     Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta luz de Ramad, o chefe dos guardas perguntou-lhe:  Quem s?
    
     A Acusao?  repetiu o gro-vizir. aterrorizado.  A Acusao quer entrar neste palcio? No! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos ns, se a Acusao aqui entrasse! A perdio, a desgraa nossa! Dize-lhe que no, no pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, no pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!
    Voltou o chefe dos guardas com a proibio do gro-vizir e disse  Verdade.
     No podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, prprias de um beduno rude e pobre, no poders falar ao nosso amo e senhor, o sulto Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!
    Vendo que no conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palcio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cpula cintilava aos ltimos clares do sol poente.
    Mas...
    Allahur Akbar! Allahur Akbar!
    Quando Deus criou a mulher, criou tambm o Capricho.
    E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palcio. E havia de ser o prprio palcio em que morava o sulto Harun Al-Raschid.
    Vestiu-se com riqussimos trajos, cobriu-se com jias e adornos, envolveu o rosto em um manto difano de seda e foi bater  porta do palcio em que vivia o glorioso senhor dos rabes.
    Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do ms de Ramad, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
     Quem s?
     Sou a Fbula  respondeu ela, em tom meigo e mavioso.  Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sulto Harun Al-Raschid, Emir dos rabes!
    O chefe dos guardas, zeloso da segurana do palcio, correu, radiante, a falar com o gro-vizir:
     Senhor,  disse, inclinando-se, humilde  uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audincia de nosso amo e senhor, o sulto Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.
     Como se chama?
     Chama-se a Fbula!
     A Fbula!  exclamou o gro-vizir, cheio de alegria.  A Fbula quer entrar neste palcio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fbula: Cem formosas escravas iro receb-la com flores e perfumes. Quero que a Fbula tenha, neste palcio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
    E abertas de par em par as portas do grande palcio de Bagd, a formosa peregrina entrou.
    E foi assim, sob o aspecto de Fbula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagd, o sulto Harun Al-Raschid, Vigrio de Allah e senhor do grande imprio muulmano!
    
    
    
     
    
    
    
    


O SINAL DE RAMANITA

H
 poucos anos, quando visitei Calcut, tomei para guia, a fim de melhor conhecer as curiosidades religiosas da ndia, um brmane chamado Marichipa, que me fora indicado pelo gerente do Hotel Dakka.
    Uma tarde, quando percorramos o templo de Parvati, passou junto de ns, acompanhada de diversos turistas ingleses, uma mulher loura, elegantemente trajada, e que despertava a ateno de todos pelas linhas incomparveis de sua formosura.
     Quem ser essa encantadora estrangeira?  perguntei ao guia.  Dificilmente poderamos encontrar, sob o cu da sia, criatura mais sedutora!
      uma das hspedes do Grande Hotel  explicou-me Marichipa.  Disseram-me que veio da Amrica e que pretende chegar, numa excurso de automvel, at Alahabad.  rica, muito destemida e percorre o mundo  procura de dolos exticos para uma coleo.
    Ao meu esprito de muulmano causou no pequena admirao aquela criatura maravilhosa que abandonava o conforto da civilizao pata vir caar manipansos entre os adoradores do Ganges. Parecia-me impossvel que se me deparasse outra vez na vida to original colecionadora de dolos. 
     Por Allah!  exclamei, com entusiasmo.  Essa americana do Grande Hotel  a verdadeira perfeio.
    Marichipa sorriu, exibindo os seus dentes amarelos.
     Verdadeira perfeio...  repetiu ele.  S mesmo um cego ou um apaixonado deixar de notar que aquela mulher traz no rosto o sinal de Ramanita!
    Fitei o guia hindu sem disfarar o grande interesse que as suas palavras haviam despertado em mim. J no era a primeira vez que me acontecia ouvir referir-se algum ao sinal de Ramanita. Declarei-lhe, pois, que no hesitaria em gastar meia libra para ouvir uma explicao minuciosa a tal respeito.
    O ouro torna eloqente o indivduo mais tmido e acanhado. A meia libra prometida operou o milagre. O guia contou-me, numa linguagem obscura, cheia de realismos grosseiros uma interessante lenda que poderia ser intitulada O Sinal de Ramanita.
    Vou tentar traduzi-la.
       
* * *
       
    No pas de Navayanta vivia uma jovem chamada Ramanita, que possua as sete virtudes, os quinze atributos e era, alm do mais, de boa casta e de origem nobre.
    Os brmanes disseram-lhe um dia:  Queres agradar ao incomparvel Indra, deus do ar? Vem servir no templo. Poders acompanhar pelas ruas as vacas sagradas e receber, nos dias de festas, as ddivas dos fiis.
A formosa Ramanita no atendeu ao convite dos sacerdotes. Para servir no templo de Indra1 seria ela obrigada a renunciar ao amor do jovem  Deybek,  prncipe  do  Adjimir. E a 

1- Indra  Um dos deuses da mitologia hindu. Vide nota 3 includa no conto Minha vida querida.
menina, embora venerasse Siva e temesse Indra, no se sentia com coragem para to grande sacrifcio. Na ndia  assim: a mulher apaixonada pe o seu amor acima dos prprios deuses!
      Verdadeira perfeio!...  repetia ele.  S mesmo um cego ou um apaixonado deixar de notar que aquela mulher no rosto o sinal de Ramanita!
    
    E os deuses hindus so poderosos; alguns h que possuem quatro e at oito braos!
    Vivem no mundo  assim afirmam os adeptos de Indra  certos seres gigantescos e perversos chamados Rakshassas. E aconteceu que o pai de Ramanita caiu gravemente enfermo, ferido pela maldade sem limites de um desses demnios1.
    Os brmanes procuraram novamente a jovem:
      Ramanita! O teu velho pai sofre a influncia dos espritos maus! Queres salv-lo? J vimos um Deityas rondando tua casa com o rosto coberto com vu preto!
     Que devo fazer?  perguntou Ramanita.
     Bem sei que os Deityas so mensageiros da morte!
     Vem servir em nosso templo durante um ano  aconselharam os brmanes.  Intercederemos junto a Indra por teu pai e,  certo, ele ficar, em conseqncia de nossas preces, so e salvo. Pelas quatro faces de Brama,  Ramanita, salva teu pai!
    As palavras dos sacerdotes calaram fundo no corao da jovem. O apelo feito  pelas faces do Grande Deus  no foi em vo e Ramanita resolveu servir ao templo durante um ano e assim o fazia somente para livrar seu pai das garras impiedosas dos Rakshassas.
    Como esquecer, porm, durante to largo perodo, aquele que era o seu nico amor?
    E uma noite, quando Ramanita, j presa no templo, fiel  sua palavra, lamentava o seu triste destino, viu surgir na sua frente a figura deslumbrante de Laidasa, que  uma das muitas ninfas,  denominadas apsaras  que habitam o cu de Indra.
     Por que choras. Ramanita?  perguntou, com voz carinhosa, Laidasa.  Aqui estou, por ordem de Indra, para auxiliar-te. Dize, pois, o que desejas. Tudo farei para servir-te.
     Tenho saudades de meu noivo  soluou Ramanita.  E, alm dessa saudade vive dentro de mim um cime torturante. Assalta-me o receio de que as mulheres, durante a minha ausncia roubem o corao daquele que ser meu esposo.


1- Rakshassas  So gnios que s se preocupam com o mal que podem fazer aos mortais. So tidos, por isso, como verdadeiros demnios.
     Que queres que eu faa?  perguntou a ninfa. 
     Bondosa apsara  acudiu a jovem apaixonada.  sei que s dotada, como todos os gnios que pertencem ao paraso de Indra, de um poder extraordinrio. S poderei permanecer tranqila neste templo se for atendida no pedido que te vou fazer. No quero que aparea no mundo, enquanto eu estiver afastada do meu noivo, mulher alguma que seja dotada de uma beleza impecvel. Deixars, bem visvel, em todas as mulheres, por mais formosas que sejam, um trao qualquer de imperfeio.
     Assim farei, minha filha  respondeu a enviada celeste.  Conserva em paz o teu corao, pois enquanto estiveres presa ao servio de Indra, no aparecer no mundo mulher alguma que possa dizer como Ramanita: A minha formosura  impecvel!
    E tendo pronunciado tais palavras, Laidasa desapareceu.
    Alguns meses depois soube Ramanita que o prncipe Deybek havia perecido, nas garras de um tigre, durante uma caada.
    A infeliz serva do templo no resistiu a esse golpe da fatalidade.
    E quando ela morreu, o seu corpo adorvel, conduzido pelos sacerdotes, foi atirado ao Ganges.
    Desaparecia com Ramanita, nas ondas do rio sagrado, a ltima mulher perfeita do mundo.
    E sabe por qu?
    Porque o deus Indra, fiel  sua promessa, continuou a imprimir em todas as mulheres, por mais formosas que pretendam ser, um trao qualquer de imperfeio. Uma tem os olhos excessivamente pequenos; outras apresentam as faces descoradas; uma terceira no sabe disfarar o nariz defeituoso. Esta tem o queixo saliente; envergonha-se aquela da pele toda manchada. Queixa-se uma da boca demasiadamente grande; lamenta a outra a pequenez ridcula do colo. Se algumas so baixas demais, outras h exageradamente altas. Vesga  uma; parece-nos gag a outra. Uma  formosa e no tem carter: outra e linda, mas estpida e pouco inteligente. Ali encontramos uma que  deslumbrante, mas tem o grave defeito de ser fria e inexpressiva: acol surge-nos outra que  interessante, cheia de encantos, mas  prfida e desonesta. Todas tm, enfim, no corpo, ou resvalando para o esprito, o infalvel sinal de Ramanita.

* * *

    Quando o guia terminava a sua curiosa narrativa, passou novamente pelo lugar em que nos achvamos a sedutora americana do Grande Hotel  a original aventureira que caava dolos pela ndia.
    Olhei atentamente para o rosto da linda excursionista e reparei que ela tinha, realmente, sobre a face direita, uma pequena mancha escura que descendo do nariz vinha formar uma curva sinuosa junto ao lbio.
    Era, com certeza, o sinal de Ramanita,  o sinal terrvel que toma mil formas, um milho de aspectos, mas que, felizmente para as mulheres, os homens apaixonados nunca chegaro a ver.


A FILHA DO MUEZIM
(Lenda rabe)
    
C
onta-se que o famoso califa Al-Mamum chamou um dia o seu gro-vizir, o fiel e bondoso Abdel-Terik, e lhe disse:
     Quero casar amanh com uma jovem muulmana de esprito esclarecido e notvel talento. Encarrego-te, meu caro vizir, de ir aos mais suntuosos palcios, como s mais humildes choupanas procurar a moa que pelos seus dotes intelectuais possa superar todas as suas companheiras!
     Escuto-vos e obedeo-vos!  respondeu o vizir, inclinando-se respeitoso.
    E nesse dia, ao cair da tarde, quando o pacato vizir regressava, como de costume, a casa, causava-lhe srias apreenses o delicado encargo que lhe dera o sulto.
    Como iria ele descobrir, entre tantas jovens de seu pais, a mais viva e inteligente! Como escolher, afinal, com segurana e acerto, uma esposa digna do Emir dos Crentes?
    Caminhava o velho Abdel-Terik to preocupado e absorto em seus pensamentos, que no deu ateno a um viajante desconhecido que lhe vinha ao lado.
    Em meio do caminho avistou um homem a colher trigo no campo.
    O desconhecido, que se conservava sempre ao lado do vizir, deixando o mutismo em que at ento estivera, observou, em voz alta:
     Ai est um bom campons a enfeixar o seu trigo! Queira Allah que ele j no tenha comido todo o trigo que est agora colhendo!
    Abdel-Terik voltou-se para o seu companheiro de jornada e fitou-o, cheio de espanto. Aquela observao inesperada e absurda era de fazer rir o rabe mais ingnuo do Isl. Como poderia um homem comer o trigo antes da colheita?
      um insensato  pensou o vizir desconfiado.  O melhor que fao  no lhe dar resposta nem ateno.
    Momentos depois encontraram um cortejo fnebre que se dirigia ao cemitrio muulmano.
    A frente vrios homens conduziam, em silncio, um caixo morturio. Trs mulheres  que pareciam vivas  choravam, cheias de desespero.
    Novamente o desconhecido observou, em voz alta, com a maior naturalidade:
     Ali vai um enterro pelo caminho de Allah! Quem sabe se aquele morto no estar ainda vivo entre ns?
    Aquela segunda observao causou ao gro-vizir no menor surpresa. S mesmo um louco poderia formular idia to absurda!
     No resta dvida  refletiu o digno ministro.  Este infeliz que vem comigo  um demente, um pobre desequilibrado. Estou certo de que um homem, em seu juzo perfeito, seria incapaz de formular to desconchavada tolice!
    Depois de caminharem ainda algum tempo juntos, chegaram os dois viajantes a uma encruzilhada.
    Voltou-se o desconhecido para o gro-vizir e disse-lhe:
     Antes que nos separemos devo dizer-vos, meu amigo, que poderamos ter vindo pelo mesmo caminho, gasto o mesmo tempo, andado do mesmo modo, fazendo, porm, uma viagem mais curta!
     E sem mais palavra, afastou-se lentamente, deixando o gro-vizir mergulhado em profundo pasmo.
     Dias depois, com grande pompa, realizou-se o casamento da jovem Nadima...
    
     Infeliz!  murmurou o bom do ministro, sinceramente penalizado.  Desafortunado filho de Ado! Esta ltima observao veio provar, bem claramente, que s um louco! Como seria possvel, vindo pelo mesmo caminho, andando do mesmo modo, gastando o mesmo tempo, fazer uma viagem mais curta?  positivamente uma parvoce!
    Ao chegar a casa contou o gro-vizir  esposa o que lhe ocorrera em caminho, repetindo-lhe as trs observaes do seu original companheiro de jornada.
    Mal terminara o gro-vizir a sua narrativa, ouviu-se no aposento contguo, alegre e viva risada feminina.
     Quem est a?  perguntou, intrigado, o ministro.
      uma pobre rapariga chamada Nadima  respondeu a esposa.   a filha do muezim1, veio hoje, casualmente,  nossa casa oferecer-me alguns trabalhos e bordados que pretende vender.
     Quero falar a essa jovem  replicou o gro-vizir.
    Atendendo a esse chamado, surgiu a moa com o rosto coberto por espesso vu.
     Minha filha  disse-lhe, carinhoso, o gro-vizir  por que motivo achaste tanta graa no caso extravagante que acabei de contar?
     Allah que vos conserve,  vizir!  replicou a jovem com humildade e respeito.  Notei (perdoai a minha audcia!) que muito vos iludistes, julgando louco o original muulmano que foi vosso companheiro de viagem!
     Como assim? No reparaste nas observaes descabidas que ele fez?
     Reparai, sim,  cheique venervel!  continuou Nadima com calma e modstia.  A meu ver o vosso companheiro de jornada  um homem judicioso e de grande talento!


1- Muezim  Pregoeiro. O muezim chama do alto das almenaras (minaretes) os fiis  orao. Os muezins, em geral. So cegos.
As trs observaes feitas revelam claramente uma inteligncia invejvel, um raciocnio claro e um juzo equilibrado e perfeito!
    E sem dar ateno ao grande espanto que invadia completamente a fisionomia do gro-vizir, a jovem assim falou:
     A primeira observao: Queira Allah que ele j no tenha comido o trigo que est colhendo!, significa que podia acontecer j ter o campons vendido antecipadamente a colheita e gasto o dinheiro assim obtido. Teria, portanto, comido o trigo que estava colhendo. Quanto  segundo observao, explica-se ainda mais facilmente. Ao dizer ele: Quem sabe se aquele morto no est vivo ainda entre ns?, quis significar que muitas vezes uma pessoa, pelas obras notveis que deixa, continua, mesmo depois de morta, na recordao e no pensamento de todos, como se na verdade estivesse entre ns!
     E a terceira observao?  interrogou o ministro.  No vejo como justificar to desarrazoada idia.
      muito fcil  acrescentou, com um encantador sorriso, a filha do muezim.  Que disse o desconhecido ao chegar  encruzilhada? Que a viagem poderia ser mais curta, muito embora fosse feita durante o mesmo tempo, do mesmo modo e pelo mesmo caminho! E isso teria, realmente acontecido, se tivessem tido a felicidade de encontrar um terceiro companheiro que fosse capaz, em agradvel palestra, de contar histrias e lendas maravilhosas que os distrassem durante a jornada, suavizando-a!
    Ao ouvir to hbil e sensata explicao, exclamou o gro-vizir:
     Allah seja louvado! Encontrei na pessoa desta jovem a esposa ideal para o grande e generoso califa Al-Mamum, nosso amo e senhor!
     Dias depois, com grande pompa, realizou-se o casamento da jovem Nadima, filha do muezim, com o poderoso Abdala III  Al-Mamum  Emir dos Crentes, califa de Bagd e senhor do grande imprio muulmano!
    
    
    
    
    
    


    
O MERCADOR DE SONHOS
    
E
ntrei. No meio da sala, mal-iluminada e forrada de tapetes amarelos, avistei um homem alto, plido, de barbas grisalhas, que se dirigiu para mim vagarosamente. Ostentava largo turbante de seda branca, onde cintilava uma pedra que no pude classificar. No seu semblante havia cansao e esse no sei qu de misterioso notado em todos quantos mercadejavam com a magia. Era o famoso feiticeiro hindu. Os marroquinos do bairro, com aquela preciso com que o vulgo geralmente apelida os tipos populares, haviam-no denominado o mercador de sonhos.
     Que desejais,  jovem?  perguntou, fitando em mim os seus olhos negros e perspicazes.
     Afirmaram-me  respondi  que o senhor possui, graas a certos fluidos mgicos, o estranho poder oculto de fazer com que uma pessoa tenha o sonho que quiser. Sou curioso. Quero experimentar os encantos de sua magia, a fora de seus fluidos maravilhosos. Quero sonhar.
      verdade,  muulmano!  verdade  confirmou o mago indiano.  Tenho, realmente, esse dom raro e precioso de poder proporcionar s pessoas que me procuram todas as alegrias e todos os prazeres de um sonho desejado.
    E, apontando para uma larga poltrona escura que estava a um canto, disse-me com gentileza:
     Senta-te e dize-me: com quem desejas sonhar? Que espcie de sonho mais te agrada,  maometano?
    Contei-lhe ento o motivo nico da minha visita quele antro misterioso da magia-negra.
     Antes de tudo  comecei  devo dizer-lhe que sou um indivduo excessivamente romntico e idealista. Sempre senti a forte atrao das fantasias. Ultimamente, durante uma festa militar em Marraqueche, conheci certa jovem crist, filha de um francs de alta linhagem, que exerce funes diplomticas na corte do sulto. Apaixonei-me loucamente pela rumie1, mas no sei ainda se sou correspondido. No obstante, desejo sonhar uma vez ao menos com a minha amada, um sonho claro e perfeito! Nesse sentido j fiz o possvel, mas os meus sonhos povoam-se de imagens quase sempre desconexas, em meio das quais nunca vislumbrei a dona dos meus enlevos, a inspiradora do meu grande amor!
     E qual  o nome dessa jovem ideal?  perguntou-me o feiticeiro.
     Susana de Plassy.
     Curioso  observou o famoso ocultista, passando vagarosamente a mo larga pela testa bronzeada  muito curioso! Ontem, ao cair da tarde,  fui  procurado  por  uma  jovem
     
     
1- Apelido que os rabes do aos cristos franceses.
crist que aqui apareceu acompanhada por uma escrava moura: a minha formosa visitante pediu-me que a fizesse sonhar com um dos oficiais da guarda do sulto, Omar Ben-Riduan! Indaguei do seu nome e soube que a jovem se chamava Susana de Plassy!
    Ao ouvir semelhante revelao, um frmito me percorreu o corpo todo e levantei-me como se fosse impelido por alguma possante mola de ao.
     Omar Ben-Riduan? Omar Ben-Riduan  o meu nome! Omar Ben-Riduan sou eu! Se ela pediu que a fizesse sonhar comigo,  certo que me ama tambm.
     Felicito-o,  jovem  replicou o indiano, batendo-me, carinhoso, no ombro.   muito raro ver-se uma formosa crist apaixonada por um muulmano. Bem sabes o imenso abismo que separa os adeptos de Mafoma daqueles que professam a religio de Jesus!
     Louco de alegria, atirei um punhado de ouro ao velho feiticeiro e corri para casa. Sentia-me alucinado como se estivesse sob a ao perturbadora de forte dose de haxixe.
 Louco de alegria, atirei um punhado de
ouro ao velho feiticeiro e corri para casa.
    
    Reuni alguns de meus mais ntimos, contei-lhes o que havia ocorrido e pedi-lhes que me ajudassem a encontrar uma soluo para o meu caso sentimental.
    El Hadj1 Ben Cherak, homem sensato e muito relacionado na alta-sociedade marroquina, disse-me, sem hesitar:
     Conheo muito bem o pai de tua apaixonada.  um cristo mau como um emir e mais orgulhoso do que um pax. Detesta os rabes e jamais consentir que sua filha se case com um muulmano! S vejo, portanto, uma soluo: ters de raptar a jovem Susana! E isso s conseguirs com a sua cumplicidade!
    Seguindo o conselho do prudente Ben-Cherak, fiz, naquela mesma tarde, os preparativos para a minha fuga com a linha rumie. Passei a fil-leile2 a conversar com os amigos sobre a minha singular aventura.
    J tarde da noite, chegou  minha casa, de volta, o portador que eu enviara ao rico palacete do nobre francs. Fui ento informado de que Susana oito dias antes havia partido para a Europa, a fim de l se casar com um fidalgo escocs.
    Percebi, no mesmo instante, que fora vtima de vergonhosa mistificao do indiano.

1- El-Hadj  titulo honroso que precede sempre o nome de todo muulmano que j fez a peregrinao  Meca.
2- Fil-leile  expresso intraduzvel. Significa, mais ou menos, a parte da noite que se segue ao pr-do-sol.
    Revoltado e furioso por causa do papel ridculo que havia feito, voltei novamente ao antro do intrujo, resolvido a tirar tremenda desforra.
    O velho hindu  depois de atender a vrios clientes que o esperavam  recebeu-me calmo, cnico, o semblante plcido de quem nunca praticara ao censurvel.
    Gritei-lhe, ameaando-o com o punho fechado:
     Miservel! Por que mentiu? Susana nunca veio aqui a este antro nojento!
     Vamos devagar, meu jovem amigo  replicou o charlato, imperturbvel, segurando-me pela mo que o ameaava.  No fiz seno o que tu me pediste. Vi, casualmente, o teu nome gravado no cabo do rico punhal que trazes  cinta. Jogando facilmente com o teu nome, pude proporcionar-te o encanto de uma iluso efmera. Menti para que pudesses no somente sonhar com um amor impossvel como tambm acreditar nele!
    E concluiu, sardnico, terrvel:
     Afinal, o que vieste buscar aqui? No foi um sonho? No foi uma iluso? Pois bem, eis, precisamente, o que te vendi: Um sonho... uma iluso...







AS INCONSOLVEIS DE HAMAD
    
A
 cidade de Niampur, na ndia,  conta-nos antiga lenda  vivia outrora um santo hindu que se tornou famoso pelos profundos conhecimentos que possua acerca das leis, costumes e crenas de todos os povos do mundo.
    Chamava-se Kavira, o Bhagav1, esse grande e virtuoso sbio.
    Um dia Kavira (Allah o tenha em sua glria!) e seu discpulo predileto Lahima Sen, como iam de peregrinao ao templo sagrado de Kasbin, caminhavam por uma larga e serpenteante estrada nos arredores de Hamad, quando ouviram um alarido singular, que parecia provir do fundo da floresta.
    Assustou-se o jovem discpulo com a inesperada bulha.
     Mestre  exclamou, dirigindo-se ao santo  alguma coisa de muito grave e extraordinrio se passa na floresta! Ouo um barulho espantoso, como se uma legio de gnios infernais rompesse do seio da terra e viesse apupar o sagrado silncio que dormia, h pouco, sob estas folhagens.
     Meu filho  respondeu o sbio  devemos procurar para os acontecimentos do mundo explicaes simples e naturais. Por que atribuir a fatos mais correntes da vida origens milagrosas e fantsticas? Deus seja louvado! Tudo o que se passa na terra, repito, se prende a causas simples e naturais.
    E. como o discpulo continuasse a mostrar-se atemorizado com o rudo que ouvia, o mestre prosseguiu:
     Esse grande rudo que perturba agora o silncio da floresta no  causado nem por gnios malignos nem por demnios em legio. Trata-se simplesmente de um elefante domesticado que os lenhadores obrigam a arrastar um tronco cheio de ramos e folhagens, pela estrada que atravessa a floresta!
    Poucos passos depois, realmente, mestre e discpulo viram vrios homens que conduziam, aos gritos, moroso e gigantesco paquiderme.
     Eia! Upa! Upa! Kab!  e o hercleo animal arrastava, na verdade, um grande tronco, cheio de ramagens que remexiam o cascalho do caminho, produzindo um barulho ensurdecedor.
      tudo assim na vida  observou o bom do Kavira.   tudo assim na vida! Ouve-se um grande rudo, a inexperta fantasia se apresenta em dar-lhe origens demonacas. Afinal... no passa o caso de um velho elefante a arrastar ramos secos pelo caminho!
    Tinha o famoso Bhagavo proferido estas judiciosas palavras, quando avistou, sentadas  beira da estrada, trs mulheres que choravam.
     Eis ali,  mestre!  exclamou o jovem Lahima  trs mulheres debulhadas em pranto! Alguma coisa de muito grave e extraordinrio por certo lhes aconteceu.
    
    
1- Bhagav - Aquele que est salvo. Bem-aventurado.
     No julgueis assim pelas aparncias, meu filho  retorquiu Kavira.  Aquelas mulheres choram, com certeza, por algum motivo muito simples e natural.
     
      Eis ali,  Mestre!  Exclamou o jovem Lahima  Trs mulheres debruadas em pranto! Alguma coisa de muito grave e extraordinrio por certo lhes aconteceu.
    
    E tomados de viva curiosidade aproximaram-se das trs mulheres.
    O sbio dirigiu-se  primeira e interrogou-a:
     Por que choras,  infeliz? Que infortnio te feriu to cruelmente para que aqui te entregues ao desafogo das lgrimas?
     Ah! Meu senhor!  respondeu a mulher, entre soluos.  Sou uma desgraada! Meu marido cada vez que se encontra comigo, nega-se a maltratar-me, no quer espancar-me! Insiste em dispensar-me o maior carinho e bondade!
    E de novo entregou-se a copioso e desfeito pranto.
      incrvel!  extraordinrio!  exclamou Lahima, assaltado por indizvel espanto.  Esta rapariga chora por um motivo singularssimo, nunca visto! Chora porque o marido no quer espanc-la! Como podemos explicar isto,  mestre?
    O santo Kavira (com ele a orao e a paz!), entreabrindo um sorriso de tolerncia e bondade, cifrou nele a sua resposta. Aquele fato que assumia aos olhos do discpulo a feio de um acontecimento absurdo e inconcebvel, deveria ter uma explicao simples e natural.
     Vejamos o que diz essa jovem  volveu ele, apontando para outra mulher que tambm se entregava ao derivativo das lgrimas.
     Ah! Meu senhor  lamentou a interpelada entre soluos.  Allah tenha piedade de mim! Sou Iasmina, filha de Abdul Ben Hamed, a mulher mais infeliz do mundo. Amo apaixonadamente meu marido. Tenho-lhe afeio sem limites, e, no entanto, o ingrato insiste em no querer casar com outra mulher! No quer escolher outra esposa.
    E atravs do vu claro que ensombrava o rosto da jovem, viam-se as lgrimas a escorrer-lhe pelas faces.
      espantoso!  inverossmil!  exclamou Lahima.  Esta mulher chora por uma razo que jamais a fantasia humana poderia conceber! Chora porque o marido, que ela tanto estima, sujeito ao seu afeto, no quer casar com outra mulher!
    E. voltando-se novamente para o sbio, perguntou:
     Como explicas esta anomalia,  tu que s sapientssimo?
    O piedoso mestre mais uma vez esboou um sorriso que refletia toda a sua benevolncia e brandura. Aquele fato, na aparncia to estranho, deveria ter, na verdade, uma explicao bem simples e natural.
    Antes, porm, de justificar com palavras o seu elevado juzo sobre as estranhas razes de infortnio alegadas pelas duas mulheres, aconselhou ao jovem que ouvisse tambm a terceira.
    E esta, que era mais formosa que a flor azul do ltus, interrogada, assim falou:
     Sou uma infeliz,  generoso prncipe! Sou a mulher mais desventurada do mundo! Casei unicamente por interesse, com um homem riqussimo. Meu marido possui terras imensas, ricos palcios e numerosos escravos! Por sua morte todos os seus bens passaro para o meu poder. H cinco ou seis dias, porm, foi meu marido assaltado por uma enfermidade gravssima. Os mdicos mais ilustres e famosos do pas, chamados  consulta, declararam-no perdido, sem cura possvel. Percebendo que ia ficar viva, ajoelhei-me a seus ps e pedi-lhe que me repudiasse antes de morrer. Eu no quero ficar viva, embora ambicione a riqueza que ele possui!
    E, entre soluos, a pobre mulher prosseguiu:
     Meu marido, porm, penalizado com a sorte de minha famlia, insiste em no querer deserdar-me! Hoje ou amanh morrer e eu serei a sua nica herdeira! Eis a minha enorme desdita,  senhor!  por isso que eu choro!
      positivamente espantoso!  observou Lahima, que mal podia exprimir-se de atnito que estava.  As razes de que se serve esta mulher para lamentar-se so na verdade inconcebveis. No quer ser viva de um homem rico, ao qual se uniu unicamente por interesse!  positivamente absurdo!
    Pela terceira vez o grande sbio hindu (Allah, porm,  mais sbio!), ao ouvir as exclamaes do discpulo, deu mostras de branda alegria.
    E como estivesse habituado a decifrar os mais complicados problemas da vida, falou desta sorte:
     Observei, raciocinei e posso, em concluso, garantir com absoluta certeza, que estas trs mulheres choram por motivos extremamente simples, frutos naturais da alma feminina! A primeira, pela maneira de falar e pelos grossos brincos de osso que traz, deixa perceber que  natural do Afeganisto. Ora, segundo uma antiga lei deste pas, o marido que espanca a mulher  obrigado a dar-lhe, a ttulo de indenizao, jias e vestidos novos! Ora, esta moa, como  muito vaidosa, chora porque o marido no a espancando de vez em quando no lhe d o direito de exigir dele jias custosas nem trajes vistosos. Chora, portanto, por um motivo simples e natural: chora por vaidade!
     E a segunda,  mestre! Como explicar o caso desta Iasmina, a rapariga apaixonada?
     O caso de Iasmina, filha de Abdul Ben Hamed, ainda  mais simples de esclarecer. Trata-se, como facilmente pude observar  pelo vu, pelos trajos e pelo nome  de uma jovem rabe maometana. Como  notrio, os muulmanos podem ter at quatro esposas. Iasmina , porm,  nica. Sente-se, entretanto, cansada com os trabalhos caseiros e tem grande vontade de que seu marido tome uma segunda esposa, de modo que ela tenha mais descanso. Uma vida trabalhosa far facilmente com que ela cedo venha a enfear e envelhecer. Quer, portanto, poupar-se, conservar--se formosa e sedutora para prender com seus encantos um marido que ela ama apaixonadamente.
    E, ante o profundo pasmo do jovem, o grande sbio concluiu:
    - Quanto  terceira mulher  que deseja ser repudiada pelo esposo moribundo  a explicao de suas lgrimas no oferece a menor dificuldade. Trata-se de uma hindu, cujas seitas religiosas so intolerantes. Segundo as crenas de sua gente, a viva  obrigada a atirar-se  fogueira que consome o corpo do marido. No se sentindo com coragem para to grande sacrifcio, por um homem que ela no ama, essa mulher prefere ser repudiada a ter de acompanhar o marido ao fogo! Que lhe poder importar a herana do marido se os bens superabundantes no lhe ho de evitar a morte?
    E Kavira, o santo hindu, concluiu, com um sorriso de bondade e candura:
     Esta, meu filho, chora porque tem medo da morte! E haver coisa mais natural do que o instinto de conservao?
    E. ao longe no seio da mata sombria, ouvia--se, ainda, vagamente, o rudo que o elefante dos lenhadores fazia, arrastando a pesada carga pela estrada afora...
      tudo assim na vida!
    Uassal!
    
     
    
    
    
    
    
    
    


MAKTUB!
(Lenda rabe)
    
A
firmam os historiadores que o tmulo de Sidi-Yakub, existente em Tlemcen, data do sculo XI. No nos move o desejo de contestar a opinio dos eruditos sobre um monumento quase em runas, perdido ou esquecido, talvez, no deserto. A nica coisa realmente interessante que se encontra nessa cuba  outrora to venerada pelos crentes   uma inscrio ali deixada por um escravo. Resume-se essa legenda numa palavra  Maktub  gravada sobre a pedra que cobre as cinzas de Sidi-Yakub.
    E sabeis,  cristo! O que quer dizer Maktub? Essa palavra encerra a filosofia de um povo, o destino de uma civilizao. Maktub  um vocbulo rabe que significa apenas  Estava escrito, ou melhor: Tinha que acontecer. Maktub , assim, a expresso da Fatalidade1.
    Tal palavra, na laje tumular de Tlemcen, recorda um episdio ocorrido com dois namorados que o Destino caprichoso uniu para depois separar cruelmente.
    Conta-nos uma lenda que na cidade de Or, ao norte da Arglia, vivia certa moa, de origem francesa, chamada Heliete. Era filha de um negociante cristo, de Marselha, que se estabelecera, levado pelas necessidades de sua profisso, sob o cu da frica.
    Certa vez, durante uma feira, conheceu Heliete o jovem Iezid El-Massi, de origem nobre, descendente de uma das mais ricas famlias de Tlemcen. Viva simpatia, que deveria crescer de dia para dia, uniu desde logo, os dois namorados.
    Heliete, levada por seu temperamento excessivamente romntico, apaixonou-se pelo rabe, e este  arrebatado como os homens de sua raa  sentiu que a sua vida no mais teria sentido se lhe viesse a faltar o amor de crist.
    A pitoresca cidade de Or, por esse tempo sob o poder de Bey Mustaph Ben Yussef, foi testemunha silenciosa daquele amor. As tamareiras, sob o sol causticante, abriam suas palmas e estendiam no cho, da praia at a montanha, um largo tapete de sombras, sobre o qual os dois jovens caminhavam felizes, longas horas esquecidas, em doces colquios.
    Grande abismo de incompatibilidade separa, entretanto, uma crist de um adepto da religio de Maom.
    Os pas de Heliete, informados das inclinaes amorosas da jovem, opuseram-se tenazmente quele casamento que se lhes afigurava desonroso. E o primeiro brigue que levantou ferro de Or transportou para Marselha a apaixonada menina.
    O Infortnio, na vida das criaturas, escreve, s vezes, vrias pginas num perodo durante o qual a Felicidade mal teria tempo para esboar a curva da letra alef. A infeliz Heliete, ferida to rudemente em seu delicado corao, no soube resistir; e adoeceu gravemente, em conseqncia daquele golpe, iniciado pela separao e concludo pela desesperana.
       
    
1- Maktub  Particpio do verbo catab, escrever.
    Sentindo avizinhar-se dela a sombra da morte, mandou chamar, em segredo, um im1, que vivia no porto, entre aventureiros e embarcadios.
     Quero morrer  confessou ela, entre soluos, ao velho maometano  na religio de Allah, que  a crena de meu noivo. A vida nos separou: quem sabe se a morte no vir pr termo a essa separao. E morrendo fiel  religio que os rabes professam terei o consolo supremo de encontrar no cu muulmano aquele que tanto amei na terra!
     Se o teu desejo  sincero, menina  respondeu o im  no porei dvida em servir de testemunha  tua converso. Basta, para isso, que pronuncies trs vezes a nossa profisso de f!
    Heliete, sem hesitar, assim falou:
     Declaro que s h um Deus, que  Allah, e que Maom  o profeta de Allah!
    E trs vezes repetiu, solene, as suas palavras que constituem o dogma fundamental da religio dos rabes.
    O im tirou, ento, as sandlias, abriu um exemplar do Alcoro, e voltando-se para Meca, a Cidade Santa, leu em voz alta o primeiro captulo do Livro de Allah2:
     Bismillahi ahmair rahin! Em nome de Deus, Clemente e Misericordioso! Louvado seja o Onipotente, criador de todos os mundos! A misericrdia  em Deus o atributo supremo! Ns Te adoramos, Senhor! E imploramos a Tua divina assistncia! Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que so esclarecidos e abenoados em Ti.
    E quando Azrail, o anjo da Morte, veio buscar Heliete, encontrou-a convertida  religio do Isl. E a alma da boa e desditosa menina foi levada para o seio de Allah, Clemente e Misericordioso.


* * *
    
    No mesmo dia em que Heliete expirava em Marselha, o cheique Iezid El-Hassin agonizava no fundo de sua tenda, no osis de Euddad, perto de Tlemcen
    Junto ao leito do desventurado moo achavam-se apenas duas pessoas: um escravo, que a dedicao extrema impedira de abandonar o cheique, e um frade que ali fora ter, anuindo a um chamado. O sacerdote era um desses missionrios que percorrem durante longos anos, os desertos africanos em trabalho de catequese. A declarao do jovem muulmano deixou-o, de certo modo, surpreendido. Confessou o cheique que nutria o vivo desejo de morrer na paz da Igreja, pois s assim poderia encontrar-se entre os bem-aventurados, com sua noiva, que era crist.
    A salvao daquela alma iluminada pela F no derradeiro momento, comoveu o bom sacerdote. Fora Deus, na sua infinita misericrdia, que o conduzira quela tenda. Cumpria-lhe, pois, salvar dos tormentos do Inferno, o jovem arrependido.
    E o padre, depois de ouvir a confisso do cheique, e tendo-se certificado da sinceridade de sua resoluo deu-lhe a absolvio plenria batizando-o segundo manda a Santa Igreja Catlica  e f-lo, ainda, receber na hstia, em comunho, o corpo divino de Jesus, Nosso Senhor!
    
    
1- Im - O Isl no admite sacerdotes. O im desempenha apenas as funes de oficiante nas oraes dirias nas mesquitas. O titulo de Im  dado a certos doutores e aos quatro fundadores do Islamismo.
2- Livro de Allah  Alcoro.
    Assim, o rico cheique Yezid El-Hassin, prncipe de Tlemcen que em vida rezara nas mesquitas e erguera preces a Allah, Onipotente, cerrou os olhos para os desenganos do mundo como um bom cristo.
    Maktub! Estava escrito! A fatalidade  cega e inexorvel.
    Estava escrito que para os dois namorados de Or nunca mais teria termo a cruel separao, e que nem mesmo com a morte veriam realizado o seu sonho de amor.
    E isso aconteceu. Ela morreu muulmana, ele morreu cristo.
    Maktub!



E o padre, depois de ouvir a confisso do cheique, e tendo-se certificado da sinceridade de sua resoluo deu-lhe a absolvio plenria batizando-o segundo manda a Santa Igreja Catlica














A NOIVA DE ROMAIANA
    
    
N
a opulenta cidade de Badu, na ndia, vivia, faz muitos anos, um rico brmane, chamado Romaiana, que possua as cinco virtudes desejveis e era, alm disso, destro e valente no manejo dos corcis de combate.
    Trs encantadoras donzelas  Nang, Laira e Lamit  requestravam o corao do garboso e gentil Romaiana. Cada uma delas parecia exceder as demais em beleza de formas, lustres de avs e graas de gestos e sorrisos.
    No sabendo o generoso Romaiana qual das trs deidades escolher para esposa, procurou um velho sacerdote, chamado Vidharba, que morava na cidade  pediu ao bom do goru lhe indicasse um meio seguro e discreto de averiguar qual das trs raparigas seria a mais prendada.
     Aconselho-te um artifcio extremamente simples  acudiu o sbio brmane ao jovem namorado.  D a cada uma das jovens um prato de arroz, no meio do qual ters, previamente, ocultado um brilhante, e pede-lhes que te preparem um gostoso manjar.
    Depois de aprontar cuidadosamente os trs pratos, conforme determinara o sacerdote, Romaiana tomou-o sob as amplas vestes, foi  casa da formosa Nang, e disse-lhe, apresentando-lhe um deles.
     Venho pedir-te, minha querida, que me prepares, tu mesma, com este arroz, um manjar. Virei, dentro de sete dias, saborear a iguaria que fizeres!
    Idntico pedido fez Romaiana, logo depois, a Laira e a Lamit, deixando-lhes os dois pratos restantes.
    No dia marcado, ao cair da tarde, foi o moo brmane, em companhia do judicioso Vidharba,  casa de Nang.
    A jovem conseguira, com o alvo cereal que lhe dera Romaiana, um manjar finssimo e saboroso.
     Como s habilidosa,  bela Nang!  Exclamou  moo, cheio de entusiasmo.  Feliz o mortal que hs de eleger para esposo!
    O velho goru disse, porm, baixinho, ao discpulo:
     Esta jovem , realmente, como disseste, bastante habilidosa, mas no te poder servir para esposa.  desonesta, e egosta, pois, tendo encontrado o brilhante no meio do arroz, guardou-o sem nada dizer-te!
    E prosseguiu:
     A mulher desonesta e egosta, conforme li no Hitopadexa1   como o tigre faminto da floresta, que tanto devora um ladro como um santo!
    Romaiana e seu mestre despediram-se de Nang, e dirigiram-se, em seguida,  casa em que morava Laira.
       
     
1- Hitopadexa  Livro composto de uma coleo de fbulas, contos morais e aplogos. O Hitopadexa  muito usado na ndia para a educao dos meninos.
    No menos delicioso estava o pudim que esta idealizara. Ao prov-lo, Romaiana ficou maravilhado:
     No h elogios dignos deste apetitoso prato! Jamais me foi dado saborear iguaria to fina! Estou encantado.
     Mais encantada estou eu ainda  retorquiu a jovem  pois no meio do arroz achei um valioso brilhante, com o qual mandei fazer, para mim, este lindo anel!
     
      Aconselho-te um artifcio extremamente simples  acudiu o sbio brmane ao jovem namorado.  D a cada uma das jovens um prato de arroz, no meio do qual ters, previamente, ocultado um brilhante, e pede-lhes que te preparem um gostoso manjar.
    
    E estendendo a mo fina e perfeita, mostrou ao namorado a riqussima jia que lhe cintilava no dedo esguio e branco.
    Mas, sem que Laira o ouvisse, o sacerdote murmurou ao ouvido do jovem brmane:
     Esta moa  prendada,  honesta, mas tem, a meu ver, um grave defeito:  egosta! A mulher egosta  conforme nos ensina o Hitopadexa   como o pssaro que devora a semente para que ningum possa aproveitar o fruto!
    E rematou, em voz baixa:
     Deixemos esta casa. Vejamos como vai receber-nos a formosa Lamit!
    Romaiana seguiu, no mesmo instante, para a casa de sua terceira apaixonada.
    Acolheu-o Lamit com grande satisfao, oferecendo-lhes um lauto banquete.
     Que vejo!  exclamou Romaiana.  Pedi-te que me fizesses, apenas, um manjar com a pequena poro de arroz que te dei, e encontro iguarias to diversas e to finas que s mesmo na ceia de um prncipe poderiam figurar!
     Pois tudo isso que a est  retorquiu a jovem  preparei apenas com o arroz que me trouxeste!
     Como foi possvel tal milagre?
     Nada mais fcil  explicou Lamit.  Ao examinar e lavar o arroz, achei um brilhante. Se esse brilhante veio com o arroz  pensei  deve contribuir para a preparao dos pratos! E. assim, resolvi empenhar o brilhante. Com o dinheiro obtido comprei vrios ingredientes para as demais iguarias que a esto. Mostrei-os s minhas vizinhas que, encantadas, me pediram lhes ensinasse a to bem faz-los. Aquiesci, recebendo, de cada uma, dois thalungs1 de ouro. Foi com esse dinheiro que consegui retirar o brilhante do penhor!
    E entregando a Romaiana a preciosa gema, disse:
     Aqui est o brilhante! Guarda-o, que ele  teu!
    O sbio bramarxi2, conduzindo o rapaz para o canto da sala, segredou-lhe:
     Casa, meu filho, une-te hoje mesmo a esta meiga e preciosa menina! Ela , a meu ver, habilidosa, honesta, boa e econmica!
    E concluiu, com firmeza, que os anos e a experincia lhe garantiam:
     A mulher econmica, segundo diz o Hitopadexa,  como a formiga que nunca leva fora de sua vivenda os gros preciosos de seu celeiro.
    Romaiana seguiu, sem hesitar, o conselho do sbio Vidharba, e viveu, muitos anos felizes, sem jamais esquecer os profundos ensinamentos do Hitopadexa:
     Em verdade, quem no tem, procure adquirir; adquirindo, guarde sem desperdiar; guardando, aumente convenientemente; aumentando, despenda nos lugares sagrados!








































1- Thalung  Moeda antiga do Sio.
2- Bramarxi  Brmane dotado de grandes virtudes. Santo da casta bramnica.


A SEITA DOS IAKINIS

Q
uando o prncipe Livati de Miapola voltava de uma caada, na grande floresta de Baladeva, viu, casualmente, junto a uma casa rstica da estrada, formosa rapariga, que trabalhava em grosseiro tear.
    Apaixonou-se o prncipe por essa jovem, e, como no pudesse refrear os impulsos de seu corao, dirigiu-se, no mesmo instante,  encantadora desconhecida e pediu-a em casamento.
     No posso aceitar a vossa generosa proposta,  prncipe! Porque j sou casada!
    E contou, pesarosa, o seu triste romance:
     Meu nome  Vitria  comeou  e sou filha de um brmane muito pobre. Quando eu tinha doze anos de idade, meu pai vendeu-me a um homem perverso chamado Jaradgava, dando-me em troca de uma dvida que fizera no jogo. Meu marido, da casta dos vaixias, tem alma de chandala1; trata-me com desprezo, e, no raras vezes, espanca-me impiedosamente!
     Pois fujamos desse bruto!  props o prncipe.  Iremos para Hiamavanta e, l bem longe, casaremos!
     No posso fugir  replicou a moa.  Embora no sinta a menor afeio por meu algoz, estou presa por um juramento que fui obrigada a fazer!
     Vou oferecer ao teu marido avultada quantia  ajuntou o mancebo.  Estou certo de que a cobia far com que ele, repudiando-te, consinta em nosso casamento!
     Nada conseguireis pelo dinheiro  respondeu a moa.  Jaradgava  caprichoso e ciumento. J apunhalou, por minha causa, um rico mercador de Benares.
    E a infeliz, com voz repassada de profunda mgoa, ajuntou:
     S poderei ser vossa esposa se for levada ao vosso palcio e entregue aos vossos cuidados pela prpria mo de meu marido! E isso  impossvel! Completamente impossvel!
    Quando o prncipe regressou, nesse dia, ao castelo, estava triste e abatido. Procurou um velho brmane, chamado Iama, seu confidente e amigo, contou-lhe o que se havia passado e pediu-lhe que o auxiliasse a vencer a teimosia e o cime do facinoroso Jaradgava.
     Estou certo  respondeu o brmane  de que V. Alteza s poder vencer esse vaicia2 perverso, se quiser entrar para a seita dos Iakinis!
    O prncipe de Baladeva nunca ouvira falar em semelhante seita: mas resolveu seguir confiante as instrues do prudente brmane.
    No dia seguinte Livati mandou convidar o perigoso Jaradgava para exercer o cargo de mordomo do castelo oferecendo-lhe timo salrio.  O  ciumento  vaicia    que  ignorava a
      
      
1- Chandala, na ndia,  o indivduo expulso da sua casa. (Nota do T.).
2- Vaicia  Uma das quatro maiores castas em que se divide o povo hindu. Veja a nota do conto A Esposa e a Morte.
paixo do prncipe por sua esposa  aceitou, sem hesitar, o generoso oferecimento.
    Alguns dias depois, o prncipe chamou Jaradgava e disse-lhe, em tom confidencial:
     Naturalmente j sabes, meu amigo, que eu perteno  grande seita dos Iakinis. Os filiados a essa doutrina secreta dedicam a todas as mulheres um amor puro e desinteressado. Quero, portanto, que tragas hoje, ao castelo, uma rapariga de casta elevada e que seja digna, pelos seus dotes naturais, de receber as homenagens que sou obrigado a prestar, segundo as formalidades prescritas pelos iakinistas.
    No se pode calcular a surpresa com que o vaicia ouviu estas palavras. Que seita seria essa? No estaria o rico senhor de Baladeva sofrendo das faculdades mentais?
    O prncipe, como se no percebesse o espanto que a sua inesperada revelao havia causado ao administrador, ajuntou:
     Quando trouxeres a rapariga, deveras lev-la ao salo de honra. E apresentando-a, deveras dizer:  Eis aqui a mulher que Vossa Alteza pediu!
    Jaradgava retirou-se, tendo prometido que tudo faria como fora ordenado.
    Intrigava-o, porm, aquele caso.
     Vou desvendar esse mistrio!  pensou. E, no dia seguinte, procurou uma rapariga muito viva e alegre, chamada Noila, e props-lhe que o acompanhasse at o castelo de Maipola. Noila, que cultivava toda sorte de aventuras, aquiesceu de bom grado.
    Jaradgava levou-a  presena do prncipe.
     Eis aqui  exclamou, solene  a mulher que Vossa Alteza pediu!
    O prncipe tomou Noila pela mo e conduziu-a, respeitosamente, ao salo de honra do castelo, cuja porta fechou.
     Vamos ter belos idlios!  murmurou o mordomo.
     Quando Noila, momentos depois saiu da sala, perguntou-lhe Jaradgava que galanteios lhe havia dito o prncipe.

Sua Alteza ajoelhou-se a meus ps e adorou-me como se eu fosse uma nova deusa!
    
     Nada  respondeu Noila.  Sua Alteza colocou-me em um trono riqussimo, ajoelhou-se a meus ps e adorou-me como se eu fosse uma nova deusa! Obsequiou-me, por fim, dando-me vestidos, enfeites e jias!
    E a jovem mostrou ao mordomo do castelo os ricos anis, os colares, as pomadas e as rutilantes peas de ouro que recebera.
      estranha essa religio!  murmurou Jaradgava.
    Alguns dias depois, o prncipe ordenou a Jaradgava que lhe trouxesse outra rapariga, pois j era chegada, novamente, a ocasio de prestar as homenagens devidas  deusa dos Iakinis.
    O mordomo trouxe, desta vez, uma donzela chamada Narana. Passou-se tudo como da primeira vez. recebendo a jovem, que era da casta dos prias1, valiosa recompensa.
      extraordinrio!  pensava Jaradgava, cada vez mais intrigado.  Parece-me que essa seita dos Iakinis no passa de uma loucura do prncipe! No creio existirem no mundo dois homens que tenham, em relao s mulheres formosas, to estranha maneira de proceder!
    Um dia, porm, quando o desconfiado Jaradgava voltava de casa, encontrou sob uma rvore, junto  estrada, um velho brmane. absorto com a leitura de um grande livro.
    E Jaradgava, aproximando-se do velho, perguntou-lhe:
      verdade,  brmane! Que existe no mundo uma seita chamada Iakinis?
    O brmane, que no era outro seno o prudente Iama, que naquele lugar fora postar-se j de propsito  respondeu:
      verdade, sim, meu filho! A grande seita dos Iakinis existe, h mais de dez sculos, espalhada pelo mundo. Os adeptos dessa elevada doutrina faz o juramento sagrado de respeitar a mulher e de prestar homenagens constantes ao sexo feminino, reduzindo todo esse culto a uma admirao platnica, pura e desinteressada.
    E o sbio concluiu, gravemente:
    Os iakinistas, homens extremamente puros, so incapazes de tocar em uma mulher!
    Agradeceu Jaradgava ao bom brmane a preciosa informao e, nesse dia, quando regressou ao castelo, estava j plenamente convencido de que a seita dos Iakinis era, na ndia, uma grande realidade.
    Uma semana depois, o prncipe pediu ao seu mordomo que trouxesse ao castelo, para o cerimnia iakinista, uma jovem de boa famlia.
     E se eu trouxesse minha esposa?  pensou Jaradgava.   claro que no haveria nisso mal algum! Esses bons iakinistas so inofensivos!
    E murmurou, cheio de ambio:
     Bela idia! Com os presentes que Vitria receber do prncipe estarei riqussimo em pouco tempo!
    O ambicioso vaicia foi nesse mesmo dia a casa e disse  esposa:
     Vou levar-te ao castelo do prncipe de Maipola. Deveras, ao chegar, obedecer a tudo o que o prncipe determinar!
    A jovem fitou com indizvel espanto o seu terrvel marido. Quem teria feito mudar de idia quele homem caprichoso e mau? 
    Jaradgava levou a esposa ao castelo e, na presena do prncipe, exclamou, como j fizera das outras vezes:
     Eis aqui a mulher que Vossa Alteza pediu! 
    
    
1- Prias  Casta antiga, perfeitamente definida, que no  a ltima nem das ltimas. Os prias no se reputam miserveis e abjetos nem so refugo da sociedade: entretm o mesmo pundonor de sua casta - ou o castismo, como se diz na ndia  que os brmanes e os xatrias e tratam as camadas que consideram mais baixas, como as de sapateiros e lavadeiras, com o puritanismo e desdm anlogos aos das castas superiores.
    O prncipe tomou-a pela mo, levou-a para o grande salo do castelo e, depois de ter fechado cuidadosamente a porta, assim falou:
     Bem vs, querida Vitria, que foi o teu prprio marido que para aqui te quis trazer! Ests desligada de teu juramento! Convencio-o de que ele deveria consentir em nosso matrimnio!
    E, ante o incalculvel espanto da moa, o prncipe ajuntou:
     Fujamos depressa! Jaradgava pode arrepender-se, de repente, do ato de generosidade que acaba de praticar.
    O prncipe abriu uma porta secreta que ficava ao fundo do salo. Foi por essa porta que os dois namorados fugiram, sem que Jaradgava pudesse perceber.
    Algumas horas depois foi o rancoroso vaicia sabedor do logro em que havia cado. Era, porm, muito tarde para qualquer vingana. O prncipe e Vitria j estavam longe!
    E ainda hoje, na ndia, os velhos brmanes contam:
     Era uma vez uma moa chamada Vitria, que entrou por uma porta, saiu por outra e... acabou-se a histria!
    
    
     
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    


UM NOIVADO EM BAGD
    
    
Quando eu tinha vinte anos de idade, fui, certa vez, a Bagd.
    No dia seguinte ao de minha chegada  tendo a necessria licena do Valli1  armei uma grande tenda junto  praa de Otm e preparei-me para vender aos vaidosos bagdalis perfumes, tapetes e as mil quinquilharias que lhe trouxera das terras longnquas da ndia e da China.
    Em dado momento aproximou-se de minha tenda uma mulher, j velha, magra e esfarrapada, o rosto descoberto, o andar curto e arrastado.
    Depois de examinar, com o olhar distrado, talvez por mera curiosidade, as bugigangas espalhadas sobre grossos tapetes hindus, disse-me:
      jovem e formoso mercador! Seja Allah o teu guia e o teu amparo! H quarenta anos passados, um homem do teu tipo escolheu-me para esposa e tirou-me do serralho de meus pais! E a felicidade sempre me sorriu no harm2 de meu amado!
    Ao ouvir palavras to bondosas, cuja simplicidade parecia aliar-se a uma emoo sincera, fiquei profundamente lisonjeado.
     Agradeo-vos  respondi-lhe  a expresso amvel e a forma gentil do vosso sal! Seja a paz a vossa estrada e a alegria s e perfeita a luz dos olhos de vossos filhos!
     Ual!  acudiu a velha.  Vejo que s afvel e eloqente. Desejo verificar agora se a generosidade que aflora nos teus lbios provm realmente de teu corao. Escuta, mercador: sou pobre e no tenho de meu um nico dinar. Queres, ainda, assim, fazer comigo uma transao?
     Ouo a vossa proposta, senhora!  retorqui, sem hesitar.  Asseguro-vos, porm, que j est aceita.
     D-me, ento  atalhou a anci  um frasco de perfume. Prometo, em troca, ensinar-te alguns versos de um antigo poeta de Mossul.
    Tomei de um dos mais belos e valiosos frascos de essncia e entreguei-o  misteriosa criatura.
    E ao tempo em que ela ocultava sob as vestes rotas, a obra-prima de um perfumista de Basra, disse-lhe:
     Aguardo ansioso o vosso pagamento, senhora!
     Oh, jovem bem dotado!  exclamou  os versos com que pretendo retribuir a tua desmedida generosidade jamais devero desamparar os teus pensamentos. Escuta-os:
    S  digno mil vezes da misericrdia infinita de Deus aquele que em si prprio encontra foras para resistir  tentao do pecado!
    
    
1- Prefeito da cidade, governador de uma provncia.
2- Harm  Vocbulo derivado do rabe har  proibido. Harm  a parte da casa de um muulmano onde ficam suas esposas.
    E, sem mais palavra, afastou-se, o andar arrastado, impelindo para diante o cascalho do caminho.
    Era a hora triste do ezz1.
    A voz cantante do muezim2 cego chamava os crentes  orao:
     Allah  grande e Maom  o Enviado de Deus! Vinde  prece,  muulmano; vinde  prece! Lembrai-vos de que, na vida, tudo  p, exceto Allah! Lembrai-vos de que...
     Voltei-me na direo da Cidade Santa3, retirei as sandlias, estendi o meu tapete e em Allah Onipotente, criador do cu e da terra, concentrei meus pensamentos, isolando-me da vida material e vil.
      Ual!  acudiu a velha.  Vejo que s afvel e eloqente. Desejo verificar agora se a generosidade que aflora aos teus lbios provm realmente de teu corao.
    
    
    Lembrai-vos de que tudo  p, exceto Allah!
    E o eco ressoando ao longe, nas montanhas de Kilv, parecia repetir:
     Exceto Allah! Exceto Allah!
    Cinco dias volvidos achava-me descuidado junto  tenda, quando avistei um cheique que passava solene em garboso camelo que um escravo negro, seminu, conduzia vagarosamente pela rdea.
     Cheique dos cheiques!  exclamei, dirigindo-lhe amistoso sal.  Maahaba ahl na Sahl na anastina! Aqui tenho  vossa disposio os nicos perfumes dignos das mulheres encantadoras do vosso harm.
    O desconhecido ergueu o rosto para mim, e num sorriso afvel traduziu o agradecimento com que retribua a saudao carinhosa que acabara de ouvir.  Parecia ainda
    
3- Ezz  Orao da tarde.
4- Muezim  Pregoeiro. O muezim chama do alto dos minaretes os fiis  orao. Os muezins, em geral, so cegos.
5- Meca.
relativamente moo. Os traos enrgicos de sua fisionomia serena faziam pensar que um escudo possante de energia devia revestir-lhe a alma. Ostentava, num requinte de bom-gosto, riqussimo keffi1 de trs pontas, todo de seda branca, com barras azuis.
    O cheique fez parar o camelo, ordenou ao escravo que o fizesse apear-se do matufl2 e concedeu-me a honra de vir examinar de perto as ricas alcatifas que eu vendia, com pacincia e probidade, sem ferir um s versculo do Alcoro!
    Quis a vontade de Allah (glorificado seja o Eterno!) que o olhar do cheique fosse incidir sobre um pequeno quadro de madeira no qual eu escrevera em belos caracteres negros os tais versos que,  guisa de pagamento, ouvira da anci.
    Mostrou-se o cheique tomado do mais vivo espanto ao se lhe deparar a legenda potica do quadro, as mos tremiam-lhe e uma onda de acentuada palidez invadiu-lhe as faces.
     Mercador  interpelou-me, num tom seguro e autoritrio  quem te ensinou esses versos?
    Contei-lhe  e no via razo para ocultar a verdade  a invulgar transao que, dias antes, fizera com a velha, repetindo-lhe fielmente as palavras gentis que dela ouvira naquela tarde!
     Louvado seja Allah, o Justiceiro!  exclamou o cheique.  Acabo de descobrir, graas ao teu auxlio,  mercador, o paradeiro de uma criatura que h trs anos procuro pelas terras do Isl.
    Naquele momento a desconfiana e a dvida invadiram-me o esprito. Teria o infeliz cheique a razo perturbada pela loucura? Ou que sentido oculto haveria em suas palavras?
    O rico muulmano, esclarecendo o caso, contou-me o seguinte:
     Meu nome  Abd-el-Uhad, e sou filho do poeta El-Bagavi, de Mossul. Compelido pelas necessidades da vida e forado, muito cedo, por um destino ingrato, deixei minha famlia e fui tentar a vida no pas de Candahar, na ndia, onde graas a Allah, tive um largo perodo de prosperidade. Passados vinte anos, como j me satisfizessem as riquezas que ento possua e tambm para livrar minha filha Slua de um raj perverso que a queria desposar, resolvi voltar ao meu velho torro natal. Soube, chegando a Mossul, que meu pai havia falecido alguns anos antes, mas do paradeiro de minha me no me souberam dar notcia alguma. E h trs anos que a procuro inutilmente pelas cidades e aldeias. J desanimado, depois de fatigantes pesquisas, deliberei, a conselho de um velho im3 de Basra, fazer uma peregrinao a Meca. Cheguei ontem a esta cidade e daqui pretendia partir dentro era breve, com uma caravana de xiitas4 para o Santurio da F. Quis, porm, Allah, o Exaltado, que eu viesse agora encontrar na tua tenda  naquele quadro que ali est  alguns dos mais belos versos de meu saudoso pai. No me foi difcil inferir  na narrativa que fizeste  que a misteriosa anci que levou o teu perfume era precisamente aquela que foi a esposa nica de meu pai. Na certeza de que ela se acha nesta cidade, espero encontr-la sem mais canseiras nem jornadas.
    E, ao terminar, pousou no meu ombro a sua larga mo bronzeada e perguntou-me, como se tivesse tomado, no momento, uma resoluo inabalvel.
     Quanto queres, mercador, pela tua tenda, com tudo o que nela se encontra?
    Meditei, em silncio, durante  algum  tempo, e  compreendi  que  o  dadivoso  cheique 
       
       
1- Pea do vesturio.
2- Espcie de palanquim que se coloca no camelo.
3- Im - Vide nota 1 da pg. 60.
4- Xiitas - Seita protestante dentro do Isl.
entendia ter encontrado uma forma delicada de manifestar a sua gratido. O cu e a generosidade do rabe  ensina um provrbio  no tem limites no possvel.
     Pela minha pobre tenda  respondi, fitando-o com desembarao  nada quero! Considerai-a, desde j, como coisa vossa! Mas pelos versos, que esto naquele quadro, quero  se for possvel  a mo de Vossa filha Slua!
    A minha audaciosa proposta causou no pequena surpresa ao rico Abd-el-Uhad.
      mercador!  exclamou.  singular! Acabas de pedir em casamento uma jovem sobre os predicados da qual no tens a menor informao1. Slua ser formosa ou ter os traos deformados pela feira?
     Cheique dos cheiques  retorqui, no mesmo instante.  Tenho sobre a beleza incomparvel de minha futura noiva, duas indicaes preciosas, de grande valor. Primeiro: Slua  vossa filha!
     E qual  a outra?  indagou o cheique, lisonjeado na sua vaidade de pai.
     Houve um raj que a desejou para esposa. No conheo vossa filha,  certo, mas conheo muito bem os rajs; e sei que so homens que no caminham de olhos vedados pelas estradas da vida!
     Aceito o teu pedido  replicou, risonho o cheique.  s,  jovem, mais inteligente do que eu pensava. Dou-te minha filha em casamento e tomo-te, de hoje em diante, sob minha proteo.
    Foi assim que fiquei noivo em Bagd. O sol anunciava no horizonte azulado do Isl a hora da prece do crepsculo.
    A voz clara do muezim perdia-se em ondas vagarosas pelo cu.
    E naquele momento, precisamente, em que o Destino parecia concluir a pgina mais feliz da minha louca existncia, apontando-me o caminho da Ventura e do Amor, chegava-me aos ouvidos aquelas palavras eternas, que me arrancavam do mundo dos sonhos para a realidade triste da Vida.
     Lembrai-vos de que tudo  p, exceto Allah...







1- Eram, em geral, as velhas que freqentavam os harns que davam aos namorados indicaes sobre os predicados das jovens casamenteiras.


   O MARIDO ALUGADO


R
achid Biram, homem generoso e rico, que negociava em jias e sedas, procurou-me um dia, muito aflito, em minha tenda.
    A sua situao era delicada e, na verdade, apresentava no pequena dificuldade. Dentro de algumas horas, antes de surgir a lua, deveria partir com uma grande caravana de mercadores damascenos para a feira de Hil. Queria, porm, antes de iniciar essa longa jornada, casar-se outra vez com a encantadora Naziha, sua ex-esposa, que oito dias antes, num momento de exaltao, levado pelo cime, havia repudiado segundo a frmula sagrada.
     Conheo aqui em Kufa  disse-lhe, sem muito hesitar,  um certo Musa ibn-David1 que se aluga para marido. Por que no o procuras? Deves obter, agora mesmo, um marido desligador.
    Antes de prosseguir, devo um esclarecimento aos leitores que ainda no percorreram, ao passo lento das caravanas, os interminveis desertos da Arbia.
    Segundo as instituies muulmanas, quando um marido repudia a esposa uma ou duas vezes, pode recuper-la, sem mais formalidades, ao fim de trs meses e dez dias; quando, porm, o repdio  feito pela terceira vez ou mediante a frmula:  Eu te repudio trs vezes  o casamento est definitivamente rompido e o ex-marido s poder contrair novo casamento com essa mesma mulher, no caso em que ela se case com outro homem, sendo pelo novo marido igualmente repudiada!
    Tal exigncia do Alcoro  que os doutores afirmam ser justificvel em teoria   na prtica uma fonte fecunda de situaes cmicas e extravagantes, pois, muita vez, um marido, desejoso de reatar relaes com a esposa que repudiou impensadamente, prepara para ela a farsa ridcula de um casamento com um marido alugado. Homens h que se prestam, mediante boa remunerao, a desempenhar o papel de marido desligador  preenchendo as formalidades de um casamento burlesco que dura, s vezes, pouco mais de uma hora.
    Musa ibn-David era um dos tais que se alugavam para marido. Era provvel, pois, que servisse ao rico Rachid Biram.
     J o procurei  declarou Rachid.  Ofereci-lhe uma boa recompensa, mas ele no a aceitou.
     Por Allah!  exclamei.  No  possvel! Musa sempre se prestou ao ignbil papel de marido alugado e no ser, portanto, capaz de recusar uma oferta desta ordem.
    Montei a cavalo e, acompanhado de um guia negro, dirigi-me no mesmo instante para a tenda do marido mercenrio.
    Encontrei sentado  porta um velho de longas barbas brancas. Era o pai de Musa.
       
       
1- Musa ibn-David.  Musa, filho de David.
     Naharak, sahid, ia qhawaja!1  saudei-o, ao chegar.  Onde est Musa,  David?
     Partiu h pouco para o deserto de Hajar  respondeu-me o ancio  e s voltar depois da outra lua!
     Sabes,  cheique!  Perguntei  por que motivo Musa no quis servir de marido desligador ao rico Biram?
     Sei, sahheb2  respondeu-me. - Meu filho, quando ainda muito jovem, conheceu Naziha e apaixonou-se por ela. E bem sabes que um homem digno no poderia fazer, com a mulher amada, o papel de marido alugado!
     Uallah!  exclamei.  Ridcula desculpa! Arrojada tolice! Um homem que exerce a degradante profisso de teu filho no pode ter semelhantes escrpulos! A formosa Naziha conhece-o bem e considera-o, por certo, mais desprezvel que o chacal!
     Por Maom!  exclamou o velho erguendo-se, colrico.  s um covarde! Procuras ofender meu filho quando sabes que j no tenho foras para repelir os teus insultos! Queira Allah que sejas castigado como mereces, pois o castigo de Deus est mais perto do pecador do que as plpebras o esto dos olhos!
    E o eco dessa praga terrvel acompanhou-me os passos pelo deserto.

* * *
    
    Nesse mesmo dia, ao cair da tarde, achava-me sentado  porta de minha tenda, meditando sobre o caso de Musa ibn-David, quando de mim se acercou uma jovem, completamente velada, que se fazia acompanhar de duas escravas.
    Saudei-as respeitosamente e perguntei-lhe o que de mim desejava.
    Respondeu-me, com voz terna e maviosa:
     Que Allah te cubra de dons,  jovem! Informaram-me hoje, pela manh, que estavas de passagem por esta cidade com uma caravana de mercadores do Cairo e de Damasco, e que hoje mesmo partirs para Bagd e da para Basra. Quero comprar alguns vestidos, peas de adornos e jias. 
    E, enquanto falava, a jovem foi pouco a pouco erguendo o seu espesso vu, deixando descoberto o pequenino rosto, em cujas linhas o Divino Artista fizera aparecer os mil segredos da seduo. Fiquei deslumbrado! Exaltado seja Allah, o nico, que soube reunir tanta beleza no olhar e tanto encanto no sorriso de uma mulher formosa!
    Seduzido pela incomparvel beleza da jovem desconhecida, prontifiquei-me a mostrar-lhe, no
    mesmo instante, todos os ricos artigos que levava: sedas, vestidos, tapetes, casemiras da ndia, colares, cafets de veludo, telas riqussimas do Indosto, vus bordados a ouro, sapatos da Prsia, peles do Cucaso e mil outras coisas igualmente preciosas e deslumbrantes.
    Duas horas ficou a jovem em minha tenda a examinar e escolher os objetos que pretendia comprar. Durante todo esse tempo, Hadija  assim se chamava a linda muulmana  falou-me  de sua  vida  no  harm de seus pais, que eram ricos e viviam num 
grande serralho junto ao Eufrates.
     Hadija  declarei, afinal, num mpeto, tomando-lhe as mos entre as minhas  devo partir amanh para Bagd. Confesso-te, porm, que estou loucamente apaixonado por ti! Queres casar comigo?

1- Bom dia,  chefe!
2- Sahheb  Ttulo honroso. Corresponde a Senhor.
    Com um sorriso encantador, que por timidez parecia procurar refgio nas covinhas das faces, ela assim me respondeu:
      jovem to bem dotado! Teu pedido traz grande alegria ao meu corao! As tuas palavras, como o vento no deserto, erguem bem alto a areia ardente dos meus desejos! Quero ser tua esposa e acompanhar-te pelo mundo na tua vida aventureira e incerta de mercador!
    E, como no houvesse tempo a perder, ficou resolvido que o casamento se faria imediatamente.
    Uma hora depois, no grande salo do palcio em que morava Hadija, realizou-se o casamento, segundo os preceitos muulmanos, na presena do cdi e das testemunhas.
    Terminada a cerimnia, deixei rapidamente o salo e fui falar com alguns amigos e empregados que me tinham acompanhado.
    Quando voltei para junto dos convidados, aguardava-me a mais dolorosa das surpresas. Fui encontrar minha esposa, em um canto do salo reclinada sobre um rico div que um largo reposteiro ocultava; estava abraada a um jovem, que a beijava apaixonadamente nos olhos negros e na boca nacarina e fresca.
      falsa criatura!  bradei, tomando de grande furor.  Ainda no h uma hora que nos casamos e j tens um amante! Longe de mim, mulher indigna, filha de Cheit1
     E, revoltado com o procedimento da desleal que eu escolhera, para esposa, gritei, cheio de clera, a frmula definitiva do divrcio:
    
       falsa criatura!  bradei, tomado de grande furor.  Ainda no h uma hora que nos casamos e j tens um amante!


1- Cheit - Demnio.
     De ti me divorcio trs vezes!
    Ao ouvir tais palavras, ergueu-se a jovem, e, com voz calma, irnica, disse-me:
     Julgas ento que eu tenho amante? s um tolo, um pateta! Olha! Olha bem! Este jovem que me abraava e beijava  a minha boa escrava Zobeida, que fiz vestir com trajes masculinos! Foste completamente ludibriado e estou de ti para sempre divorciada!
    Foi com espanto que percebi o engano que cometera num momento em que o cime e a paixo me haviam tornado cego. A pessoa que estava com Hadija era realmente uma escrava disfarada com os cabelos cortados e vestida  maneira dos homens.
     Hadiji!  exclamei.  No sei como explicar o teu estranho proceder. Se no querias ser minha esposa, por que aceitaste o meu pedido de casamento?
     Devo-te uma explicao,  muulmano  tornou a jovem.  H dois meses, mais ou menos, meu marido, Salim Hamed, num momento de exaltao, divorciou-se de mim, pronunciando trs vezes a frmula sagrada do divrcio. Ontem, porm, procurou-me e props a reconciliao e um novo casamento. Infelizmente, segundo as nossas leis, eu no poderia casar com ele sem ter casado antes com outro homem que me repudiasse. Na falta de um desligador de confiana, resolvi lanar mo de um estratagema. Casei contigo e procurei dar-te um pretexto, embora falso, para que me rejeitasses imediatamente. Agora, sim, posso casar com Salim Hamed!
    E voltando-me as costas, deixou-me estupefato diante do cdi e das testemunhas que se riam de mim.
    Eu havia feito, sem querer, o ridculo e ignbil papel de marido desligador!
    O castigo de Deus est realmente, mais perto do pecador, do que as plpebras o esto dos olhos!



     A DANARINA HINDU


A
o atravessar, naquela tarde, a secular praa de El-Madhi, avistei um jovem e elegante cheique, de turbante verde, que saa do ha-m1 acompanhado de dois escravos negros. Mal pousara em mim os olhos, o desconhecido veio ao meu encontro e saudou-me  maneira clssica dos rabes nobres:
     Allah badich, ia sidi! Deus vos conduza, senhor!
     Katter quhairag  respondi, agradecendo.  Que Allah torne felizes os dias de tua vida,  jovem!
    E certo de que no me seria difcil, num rpido haddis2 descobrir a identidade daquele amvel muulmano, disse-lhe com a inteno de provoc-lo a uma ligeira palestra:
     J sabes, meu amigo, que amanh, ao nascer do sol, se Allah quiser, partirei para Basra chefiando a grande caravana de mercadores?
     J sei, sidi  respondeu-me.  Estou bem-informado de todos os recursos de que dispe a nossa caravana!
    E o cheique acentuou bem a expresso nossa caravana, fitando em mim os seus olhos vivos, com o disfarado desejo de ler nos meus a surpresa que suas palavras deveriam causar-me.
    Ual! Nossa caravana? Eu conhecia todos os mercadores, guias e cameleiros; no havia, entre os homens que me acompanhavam  desde o beduno sem nome ao mais orgulhoso chamir3 um s que me fosse estranho. Como admitir que aquele desconhecido pertencesse ao nmero dos meus viajantes?
     Sou o cheique Fauzi Jabor, auxiliar do sulto Al-Mamum!  disse-me.  Devo ir a Basra levar uma ordem secreta para o governador. O gro-vizir j no vos falou a meu respeito?
    Sim, era verdade. Recebera, dias antes, do primeiro-ministro, uma ordem para conduzir at Basra um emissrio do califa. J no era, alis, a primeira vez que me acontecia levar nos ricos cheqdefs4 da caravana mensageiros, escribas e agentes da corte muulmana.
     Sinto-me feliz,  cheique  tornei eu  por saber que vou t-lo como companheiro de jornada. Que as grandes alegrias e os violentos simuns nos encontrem sempre juntos. A amizade desinteressada dos nobres s pode honrar aos aventureiros do deserto!
    
     
1- Casa de banhos.
2- Haddis  Conversa ligeira. Troca de palavras.
3- Chamir  Chefe de caravana.
4- Cheqdef  Espcie de palanquim, colocado sobre o camelo.
    E, enquanto conversvamos alegremente como velhos amigos, amos caminhando, lado a lado, pelas ruas mais movimentadas. A pequena distncia, os dois escravos negros, os braos cruzados sobre o peito, nos acompanhavam solenes.
     Em que pretendeis ocupar, afinal, as vossas horas, em Bagd, at o momento da partida?  perguntou-me o cheique.
     Penso em despedir-me de alguns amigos.
     Despedidas?   tarde demais para to ingrato passatempo! Informado pelos meus auxiliares de que seria obrigado a partir amanh,  hora do sefer1 j apresentei aos bagdalis2 o meu sal3 da ausncia. Vou ver agora a famosa bailarina hindu que chegou ontem de Mossul. Dizem que  linda como a gazela. Queres ir comigo, chefe?
    E vendo-me indeciso, insistiu, risonho, puxando-me pelo brao:
     Emchi narruhh! Vamos! Emchi narruhh! 
    H duas coisas que o rabe no sabe recusar: a tmara quando  doce, e o convite interessante quando  amvel!
     Emchi nahbad!  respondi.  Vamos!
                  
* * *
                  
    A escrava que nos recebeu  porta, ao ouvir o nome do cheique, deixou-nos entrar imediatamente e conduziu-nos por um longo corredor, at uma sala espaosa, ricamente decorada, onde j se achavam trs outros visitantes.
    Fauzi Jabor conhecia os presentes e a cada um deles dirigiu um afetuoso sala:
     Masa al-qhair, cheique!
     Kif el-solha, cheique!
    Sentei-me numa grande almofada. Uma circassiana trouxe-me belo narguil de prata com a brasa j preparada. Sentia-se no ar um cheio embriagador de fumo e haxixe.
    Um dos visitantes, depois de trocar algumas palavras com um velho que se achava a seu lado, descruzou, lentamente, as pernas, levantou-se vagaroso como um elefante e veio acomodar-se junto de mim. Era barrigudo e disforme; usava turbante alto, malfeito, sob o qual aparecia um rosto redondo, esverdinhado, cheio de mculas escuras. Tinha os olhos vidrados, acticos, tristonhos. 
     Uma palavra, cheique  disse-me, quase em segredo.  s o chamir da grande caravana que parte hoje4 para Basra?
     Julgo que sim  respondi, sem procurar disfarar a m vontade com que mal o podia tolerar.
    Insistiu, impertinente, com a voz cada vez mais elevada.
     Dize-me, ento, que ordem misteriosa  essa que o jovem Fauzi Jabor vai levar ao governador de Basra?
     Lamento no poder informar-vos. Excelncia5  retorquiu, abespinhado.  No sou um djin6, nem aprendi com os marabus da Prsia a descobrir pela cor da lua o segredo das coisas ocultas. Posso assegurar-vos que nem mesmo o meu nobre amigo Fauzi Jabor conhece os termos da carta de que  portador.  uma ordem secretssima do nosso amo e senhor, o glorioso califa Al-Mamum, Emir dos Crentes. S Allah sabe a verdade!
       
       
1- Sefer  Prece feita ao nascer do sol.
2- Bagdali  Indivduo natural de Bagd.
3- Sala  Saudao dentro do Isl.
4- Para os rabes a noite precede o dia. A noite do dia 7, por exemplo, comea ao pr-do-sol do dia 6. 
5- Excelncia  Tratamento dado aos vizires do sulto. Aplicado a qualquer pessoa  ironia.
6- Djin  Gnio dotado de grande poder.
    O meu inquiridor fez-se cor de cal, levantou-se visivilmente contrariado e foi retomar o lugar em que se achava, rosnando contra mim ameaas descabidas:
     Algum dia, chamir, a tua discrio ser causa de uma desgraa!
    E ia eu intimamente desejar que a alma daquele estpido fosse presa de Cheit1, o Execrvel, quando Fauzi Jabor, o cheique, surgiu conduzindo, orgulhoso, pela mo, a formosa danarina hindu.
    Ao v-la, fiquei deslumbrado. Jamais o destino fizera com que se me deparasse na vida criatura mais sedutora. No fosse a barreira do pecado, no teria dvida em eleg-la, naquele mesmo instante, a sexta mulher perfeita do Isl2.
    Fauzi Jabor no fazia empenho em ocultar que estava apaixonado pela infiel. E quem seria capaz de censur-lo? A danarina tinha, a meu ver, as treze perfeies que Allah, o Clemente, concede s huris do Paraso. Treze? Treze, no. Treze menos uma, com certeza!
    Com espanto dos circunstantes, a bailarina apontou para mim com seu brao nu:
      aquele, Fauzi, o teu amigo chefe da grande caravana?
    Levantei-me, respeitoso, e disse-lhe:
     Lla3, no passo de um humilde beduno do deserto. Seria, entretanto, capaz de enfrentar uma legio de panteras, se depois de tal proeza houvesse de ter por prmio, a honra de ser includo no nmero de vossos escravos!
    Nazira  assim se chamava a bailarina  sorriu, lisonjeada.
     Mach Allah! Se me permitissem os distintos amigos aqui presentes, eu gostaria de dizer algumas palavras, em segredo, ao chamir da caravana!
     Pois no! Pois no!  exclamaram os cheiques.
    Fauzi Jabor disse-me:
     Acompanhai Nazira,  beduno feliz! Ela confidenciou-me que tem um pedido a fazer-vos!
    Atravessei a sala contando meus passos pela indizvel timidez que me dominava. Ao passar junto do indiscreto barrigudo esverdinhado, o repelente cheique segurou-me pelo brao e bafejou no meu ouvido:
     Cuidado, chamir! Essa mulher tem um mistrio qualquer na vida! Cuidado!
    Levou-me a bailarina para um aposento vizinho. Uma escrava persa, com gestos lnguidos, ofereceu-me, num prato dourado, frutas, doces secos e um delicioso vinho de Chipre.
    A bailarina, cruzando as pernas, numa atitude graciosa, sentou-se a meu lado. Um perfume esquisito evolava-se de rico hattarak4; pequenina lmpada azul, sobre um camelo de bronze, derramava pelas coisas uma aparncia de mistrio.
    Chegava vagamente aos meus ouvidos o som triste de um alade.
     J te disseram, chamir  comeou Nazira, num tom mavioso de pacincia  que eu tenho na vida um mistrio?  intil negar. Ouvi perfeitamente a insinuao daquele detestvel chacal, que desde Mossul me vem perseguindo com suas toleimas. Infelizmente no  mentira. Pesa sobre a minha existncia o tormento de um segredo. J colhi a teu respeito, chamir, vrias informaes; estou certa de que s honrado, valente e discreto.
     Senhora! Outra recompensa no quero seno os elogios que brotam dos vossos lbios bondosos!
       
       
1- Cheit  Demnio.
2- Segundo as crenas muulmanas, as mulheres perfeitas foram em nmero de cinco, e figuram, imortais, no Alcoro.
3- Lla  Tratamento respeitoso; significa senhora.
4- Vaso especial em que se queimam perfumes.
    Nazira prosseguiu:
     Preciso do teu auxlio, chamir. E para que possas, com segurana, dispensar-me o teu amparo,  mister que conheas previamente o to falado mistrio de minha vida.
     Aos treze anos  comeou, com suave mgoa  casei-me, por imposio de meu pai, com um gramtico de Medina, homem perverso, avarento e sem escrpulos. Antes mesmo que nascesse o nosso primeiro filho, meu marido vendeu-me a um aventureiro srio, chamado Kasl, que exibia pelas cidades bailarinas escravas. Foi ento que aprendi o triste ofcio que hoje exero. Quando nasceu o meu filho, resolvi consultar sobre o seu futuro um certo marabu de Medina, que sabia ler na areia o destino das criaturas. Disse o marabu:  Tua beleza, mulher, ser a causa da morte de teu filho! Chorei, desesperada, ao saber que o Destino havia escrito na pgina de minha vida to trgico sucesso. Dizem os cristos que  possvel, s vezes, alterar-se a marcha dos acontecimentos. Que fazer? Mutilar-me? Sim, pensei nessa soluo desesperada. Com dois ou trs golpes seguros de punhal eu conseguiria, como uma selvagem africana, deformar para sempre as linhas perfeitas do meu rosto. Kasl, informado desse hediondo projeto, ameaou-me de morte! Por Allah! O gramtico avaliara a minha beleza em vinte camelos de sela!  Se tens medo do Destino  dizia-me  separa-te de teu filho. Manda-o para outra cidade, para outro pas. Longe de ti ele estar salvo da previso do marabu; a tua beleza no lhe poder fazer mal algum. Segui tal conselho, que me pareceu razovel e certo. Mandei meu filho para Basra com alguns bons peregrinos que regressavam de Meca. E desde esse dia nunca mais tornei a v-lo. Sei que vive ainda;  forte, e belo! Tem agora dezoito anos; chama-se Tasib Zal e  muito estimado pela honrada famlia que o adotou.
     E agora, chamir  concluiu Nazira, com voz trmula  que ests de posse do grande segredo de minha vida, vou dizer-te qual o favor que espero merecer da tua boa-vontade. Quero que procures em Basra meu filho Tassib; perguntars por ele ao muezim da mesquita de Shara-Sawa. A meu filho entregars esta pequena caixa na qual reuni, durante dez anos, algumas economias. Com esse auxlio meu filho poder casar-se sem recear as mil dificuldades da vida.
    E a bailarina colocou-me nas mos uma pequena caixa repleta de moedas de ouro.
     Lla  exclamei  o filho querido receber o prmio da dedicao materna! Juro por Allah, o Exaltado, que empregarei todos os esforos a fim de fazer com que esta valiosa ddiva chegue s mos daquele a quem  destinada!
    E voltamos em silncio para o salo. Fauzi Jabor e os outros cheiques divertiam-se com uma jovem escrava que cantava ao som de um alade um belo poema de Antar.
    Todos os olhares convergiram, curiosos, sobre mim.
    Assaltaram-me com desencontradas perguntas:
     Que te disse a bailarina? Qual  o mistrio de Nazira? Que desejava ela, antes de partir a caravana?
     No sei  respondia sempre aos importunos.  No sei.
    E no houve quem percebesse que eu escondia, sob o meu largo keffi de seda, a pequenina caixa cheia de ouro.
    Nazira  a pedido dos cheiques  resolveu executar a chamada Dana do Drago.
    Aproximei-me de Fauzi e disse-lhe:
     Vou deixar-vos, cheique! J vai adiantada a noite. Pouco falta para que o muezim chame os fiis  primeira prece. Quero verificar se os camelos esto carregados, as tendas arrumadas e se os guias esto nos seus lugares.
     Est bem  respondeu-me o cheique.  Vou ficar aqui, neste delicioso refgio, mais algum tempo. Na hora da partida   certo  l estarei com meus ajudantes e servos.
     Por Allah! Qualquer atraso ser grande transtorno para a caravana!
    A formosa danarina, com seus trajes coloridos e vistosos, executava, diante de um grande tapete, onde aparecia a figura fabulosa de um drago, uma das danas caractersticas da Prsia antiga.
    Tive a impresso de que o drago fantstico rondava a bailarina, prestes a devor-la. A fatalidade  dizia El-Hadira1   como o drago da lenda; cai de repente sobre a vtima para esmag-la com as garras do Infortnio!

* * *
    
    A caravana estava pronta. At os ajudantes de Fauzi Jabor, com os seus trinta e cinco camelos perfilavam-se j nos seus lugares.
    Terminada a prece, disse aos guias da frente:
     No  possvel partir neste momento. O emissrio do califa  pessoa da mais alta distino,  ainda no chegou, mas no deve tardar. Sem ele a caravana no partir. Esperemos.
    Fauzi Jabor, entretanto, apesar do prometido, no aparecia.
    Sentia-se que a impacincia agitava os bedunos. Um dos mercadores perguntou-me:
     Por quem esperamos, chamir? Ser possvel que a caravana fique o dia inteiro parado ao sol,  espera de um prncipe folgazo que se diverte com bailarinas?
    Respondi-lhe, num tom spero, que no admitia rplica:
     Aqui quem manda sou eu! Se no te serve a caravana, o deserto  livre! Podes ir!
    E submissos, sem revolta, os homens por mim chefiados esperaram.
    Infelizmente, porm, s no dia seguinte, ao pr-do-sol, foi que Fauzi Jabor deixou a casa da formosa bailarina.
    E a grande caravana, com um dia e meio de atraso, ganhou lentamente a estrada do deserto.
    Os cameleiros resmungavam, maliciosos:
     A bailarina  bela! A caravana que espere! Os grandes albornozes brancos, soltos no ar, pareciam pssaros gigantescos que surgiam da terra.

* * *
    
    Depois de uma jornada feliz  assim quis Allah,  entramos em Basra.
    Havia, quando chegamos, na praa de Moalhim, um grande ajuntamento de populares. Informaram-me de que ali tambm se achava o governador Ahme-Ibn Makula, com seus auxiliares e escribas. Sem perda de tempo fui ter  presena do cdi, saudei-o respeitosamente e apresentei-lhe, em seguida, o chefe Fauzi Jabor, que se achava, ento, a meu lado.
     Allah conserve o cdi!  exclamou o jovem Fauzi, aproximando-se.  O califa Al-Manum, Emir dos Crentes, ordenou-me que fizesse chegar s vossas mos esta mensagem. Que Allah conserve o cdi!
O poderoso governador de Basra tomou da carta que o cheique trouxera, tirando-a com vagar do sobrescrito.

1- Antigo poeta rabe.
     Lamentvel!  exclamou o governador, mal havia terminado a leitura do breve documento.
     No posso infelizmente atender ao que determina aqui o glorioso califa Al-Mamum, nosso amo e senhor! Esta ordem chegou-me tarde s mos!
     Como assim?  interroguei, assustado.  O atraso com que chegamos teria sido causa de alguma desgraa?
       verdade, chamir  concordou o cdi.
      Lamentvel!  exclamou o Governador, mal havia terminado a leitura do breve documento. Esta ordem chegou-me tarde s mos.
    
     A mensagem que o jovem Fauzi Jabor trouxe de Bagd era da maior importncia; tratava-se de uma ordem do sulto para que fosse comutada a pena de morte de um condenado. O perdo do nosso generoso califa nada mais adianta; o infeliz prisioneiro foi executado hoje, pela manh!
    Naquele momento  sem que eu pudesse explicar o motivo , um terrvel pensamento atravessou-me o esprito. Era bem verdade que a famosa bailarina tinha sido, indiretamente, culpada da morte do condenado, pois fora ela quem, com seus encantos, prendera o cheique em Bagd, retardando por muitas horas a partida da caravana!
     E como se chamava  perguntei  o infeliz que foi executado por no ter chegado a tempo a ordem do califa?
    Um dos oficiais do cdi respondeu:
     Chama-se Tassib Zal, o poeta, e era natural de Medina!
    Ouviu-se um forte rudo metlico. Era a caixa de Nazira, que eu trazia oculta, presa sob o brao, e que por descuido meu cara inesperadamente ao cho. As moedas de ouro espalharam-se pela areia. Fiz com que o valioso presente fosse repartido entre os pobres. Na verdade, a pessoa, a quem era destinado aquele ouro rutilante, no precisava mais das recompensas do mundo, pois j havia comparecido ao julgamento de Deus!

UMA LENDA SOBRE A BELEZA


N
o livro sagrado, que os sbios intitulam O Ltus da Lei Perfeita, encontrars, meu amigo, depois da dcima pgina, uma lenda esquecida pelos homens, apesar de estudada por sete profetas. Refiro-me  Lenda da Beleza que venceu o Tdio e conquistou a Vida.
    Certa vez, por um triste capricho da Fatalidade, o poder do mundo foi cair nas mos odientas da Vulgaridade.
     Que fez a Vulgaridade ao subir ao trono? Resolveu destruir e aniquilar a sua perigosa rival  a Beleza.
    Chamando o Tdio, seu servo predileto, disse-lhe a execrvel soberana:
     Detesto a Beleza! Quero faz-la desaparecer da face da terra. Tens ordem para pend-la e mat-la de qualquer modo.
    O tdio respondeu:
     Escuto e obedeo, senhora! Mas, afinal, como  a Beleza? Como poderei encontr-la, se no a conheo?
     Ora, nada mais simples  tornou a Vulgaridade.  Interroga um poeta qualquer e logo sabers como  a Beleza.
    Partiu o Tdio. Encontrando um poeta interpelou-o:
     Como  a Beleza?
    Sem hesitar, respondeu o poeta:
     Ainda ignoras? A Beleza  loura, de olhos azuis da cor do cu; a sua pele  clara e rosada, as suas mos...
     Basta! Tudo o mais que disseres seria fastidioso e intil. J sei como  a Beleza! Vou descobri-la por mais oculta que esteja.
    E o Tdio partiu em busca da Beleza...
    Depois de muito caminhar, chegou ao pas de Moab, para alm do grande deserto. Um campons repousava sob uma rvore.
     Ters visto, por aqui  perguntou o Tdio  a Beleza que procuro?
     Queres descobrir a Beleza!  exclamou o campons.  Ei-la precisamente ali,  forasteiro!
    E apontou na direo de uma jovem que se encaminhava para a ponte, levando ao ombro um pequeno cntaro.
    O Tdio procurou certificar-se. A graciosa rapariga era morena, de olhos verdes e cabelos castanhos como as filhas de Jud! Mas como diferia da que fora descrita pelo poeta! No, no podia ser a Beleza!
     A Beleza fugiu para a China!  informou um peregrino.
    Seguiu o Tdio para a China e indagou de um rico mandarim que soltava papagaios de seda:
     Senhor! Teria a Beleza aparecido em vossa terra?
     Apareceu, sim  replicou, alegre, o mandarim.  Ei-la!
    E com o seu dedo de unha longa e angulada, apontou para uma rapariga ocupada em fabricar lanternas de papel.
    O escravo da Vulgaridade preparou-se para executar a ordem que recebera. Enganara-se, porm, o informante. A jovem que o mandarim indicara era plida, esguia, tinha os olhos amendoados, os cabelos negros e ondulados. No; aquela no podia ser a Beleza!
    O Tdio deixou o pas dos chineses e foi em busca de outros climas. Diante dele a Beleza fugia sempre, ocultando-se astuciosamente. Todo o seu esforo tornou-se intil. No conseguiu encontrar e destruir a Beleza!
    E o livro admirvel O Ltus da Lei Perfeita  ensina com sua eterna e incomparvel sabedoria:
     Eis por que a Beleza floresce e domina, sob aspectos to diversos, quando a observamos, nos inconquistveis recantos e pases do mundo. Aqui  morena e tem olhos negros, mais adiante  loura, de claros olhos de anil. Aqui  viva e alegre, para, alm, surgir sentimental e terna!
     que a Beleza, para fugir do mal do Tdio e ao perigo da Vulgaridade, varia sempre e sem cessar.
     
    
Partiu o Tdio. Encontrando um poeta interpelou-o.  Como  a Beleza?
    
    
    
    
    
    
    
    



PARBOLA DAS MES FELIZES
(De um poema rabe do sculo XII)


J
ovem me ia, enfim, iniciar a grande jornada pela estrada incerta da vida. E perguntou, muito tmida, ao Anjo Bom do Destino:
      longo o caminho a percorrer, Senhor? Serei feliz com meus filhos que tanto amo e estremeo?
    Paciente e benvolo e com voz cheia de meiguice, respondeu-lhe o Anjo Bom do Destino:
     O caminho, que se abre diante de ti,  longo muito longo, semeado de angstias, recortado de dores e tapetado de fadigas. Antes de alcanares a curva extrema, vir a impiedosa velhice ao teu encontro. Ainda assim, asseguro-te que os teus derradeiros passos sero mais cheios de alegria e ternura do que os primeiros.
     E a jovem me partiu. Sentia-se extremamente ditosa em companhia de seus filhinhos. 
      O caminho, que se abre diante de ti.  longo, muito longo, semeado de angstias, recortado de dores e tapetado de fadigas.
    
    A existncia lhe decorria sob o vu de um delicioso encantamento. Brincava com os pequeninos; colhia para eles, unicamente para eles, as mais lindas flores que adornavam os caminhos do mundo. E o sol brilhava, inundando a terra com a bno de suas torrentes de luz.
    E o dia se escoava to sereno, que a jovem me murmurou, fitando, enternecida, o cu azul:
     Nada haver, Senhor, de mais belo! Jamais serei, na companhia de meus filhos, mais feliz do que o sou agora!
    A noite veio, porm, alongando sobre a terra o seu manto pesado e sombrio. Nuvens disformes amontoaram-se no firmamento; desabou o temporal. O vento norte uivava como um chacal faminto correndo tonto pelos areais sem fim. Os pequeninos, tolhidos de frio, trmulos de medo, soluavam. A jovem me destemida aconchegou-os a si, agasalhando-os sob sua tnica; e as crianas, bem abrigadas e protegidas, murmuraram docemente, docemente murmuraram:
      mezinha querida! O medo j no se abriga em nossos coraes! A teu lado, mezinha adorada, nenhum mal nos alcanar!
    E a jovem me exclamou num mpeto de alegria:
     Isto para mim,  Deus!  mais belo e grandioso do que a jornada pelo caminho tranqilo, sob o esplendor do dia! Sinto-me, realmente, feliz! Mais feliz do que ontem! Contra a tormenta protegi meus filhos e lancei, para sempre, em seus coraes, a semente do destemor, da confiana e da coragem!
    Passou a noite. Louvado seja Deus! A noite passou. Raiou, esplndida e balsmica, a alvorada. A estrada, naquele terceiro dia, se estendia, ladeirenta, pelo dorso de uma montanha alcantilada e perigosa. Era foroso subir. Subir muito. Os pequeninos sentiam-se fatigados. A jovem me, quase desfalecida de sede e de cansao. Fazendo, porm, das fibras corao, mostrava-se animosa, e, sem cessar, dizia aos filhos:
     Vamos! Para cima! Breve chegaremos ao alto! Vamos! Subamos sempre! Subamos!
    E essas palavras multiplicavam energias que o esforo constante e excessivo queria aniquilar. E as crianas iam subindo, subindo... Chegaram, finalmente, ao cimo da montanha. A jovem me os enlaou, ento, em seus braos carinhosos. E eles lhe disseram:
       mezinha querida, sem ti no teramos conseguido vencer estas escarpas, contornar estes abismos e levar a bom-trmo esta jornada. Sem o teu auxlio incomparvel sucumbiramos em meio da escalada. Sabemos, agora, como superar os grandes tremedais da sorte!
    E a delicada me, ao repousar naquele dia, semimorta, exclamou arrebatada:
      Deus, clemente e justo! O dia de hoje foi para mim melhor ainda do que o de ontem! Sinto-me mais feliz! Mais feliz do que nunca! Ensinei meus filhos a enfrentar bravamente os revezes e as tristezas da vida!
    No quarto dia, estranhas nuvens cor-de-chumbo cruzaram o cu. Um rugido surdo, que parecia partir das profundezas ignoradas da terra, enchia o ar soturnamente. De sbito, a imensa montanha tremeu; rochas descomunais desprenderam-se e rolaram com estrondo para os abismos apavorantes.
    Era o cataclismo que comeava. To altas e densas erguiam-se as colunas de p, que chegavam a cobrir a face do sol. E as trevas da noite desceram sobre a terra em pleno dia. A morte, com suas garras de fogo, rondava por toda a parte. Nem tenda havia nem caverna ou abrigo, onde um ser humano pudesse ter segura a curta vida. As crianas, presas de cruciante pavor, choravam. E a jovem me, serena e forte, lhes dizia:
     Em Deus confiai, meus filhos! Olhai para cima! Deus no nos abandonar!
    E os pequenos confiaram em Deus. E Deus os livrou da fria infrene. Ao findar aquele dia a me exclamou, em xtase, erguendo humilde para os cus os seus olhos cheios de gratido:
     Este foi o dia melhor da minha vida. Senhor! Ensinei a meus filhos a crer em Vs, a confiar em Vs, s em Vs,  Deus misericordioso!
    Amontoaram-se os dias: sucederam-se os meses; os anos passaram. E a me, toda entregue  felicidade e ao bem-estar dos filhos, no sentiu o rolar intrmino do tempo. Os seus formosos cabelos fizeram-se brancos como a neve; o brilho desapareceu-lhe dos olhos; a face tracejou-se-lhe de rugas. Era, enfim, a velhice. Mas, que encanto para sua vida de me! Os filhos crescidos, fortes, cheios de alegria, pareciam redobrar neles a boa seiva que dela partira. Ela, a me feliz, curvada ao peso da vida, j mal podia caminhar. Os filhos, porm, ali estavam, a seu lado, para servi-la, honr-la e obedecer-lhe!
    O mais velho dizia-lhe, carinhoso e com desbordante afeto:
     Mezinha! Quero hoje carregar-te em meus braos! Ests to fraca e cansada!
    Protestava o mais moo com entusiasmo:
     Que egosmo  esse, meu caro! Hoje  meu dia. Eu, sim,  que irei carregar a mezinha querida!
    E a me feliz sorria a um, abraava a outro; beijava a ambos.
    Que bons e dedicados lhe eram os filhos. Sim, para o corao materno, fizera pausa o tempo. Eles eram ainda os seus filhinhos, os filhinhos ternos, estremecidos... E ela sentia-se to feliz, to feliz, que no achava palavras com que agradecer a Deus!
    Um dia, afinal, a me ditosa reuniu os filhos e disse-lhe, num fiozinho de voz:
     A minha tarefa est finda, meus filhos. Vou deixar-vos. Irei para longe, para muito longe daqui ...
    O mais velho acudiu logo, carinhoso:
     Pois iremos contigo, mezinha! Ningum nos poder separar de ti!
    Ela no sustentou as lgrimas e deixando-as deslizar, insistiu com meiguice:
     No, queridos. Desta vez terei de ir s. Sozinha partirei.
    E eles, afeitos  obedincia, mais uma vez obedeceram. E a boa velhinha partiu. Foi indo, vagarosamente, toda encurvada, trmula...
    Diante dela, no extremo do caminho, abriram-se dois largos portes que refulgiam cheios de luz. Entrou. Uma voz, que mais parecia um cntico de glria, lhe dizia com infinita mansuetude:
     Vinde a mim,  me feliz! Vinde a mim!
    Os filhos, que a vigiavam de longe, viram-na de repente desaparecer:
     Ela partiu para sempre! No a veremos nunca mais! Nunca mais!  exclamaram emocionados.  Mas a santa lembrana dessa me querida viver para sempre em nossos coraes! Eduquemos nossos filhos como ela nos educou: na bondade, na obedincia, no amor...
    E no silncio da tarde que caa, lentamente, ouvia-se o sussurro de um chorar longnquo. Calaram-se todos.
    Que seria? Era o filho mais moo. O rosto entre as mos, inconsolvel, soluava de joelhos,  margem da vida, com a dor da saudade a negrejar-lhe o corao:
     Minha Me! Minha Me querida!...


A LENDA SINGULAR DO VASO TORTO


E
ra assim. Louvado seja Allah!
    Era assim que Amid, o velho oleiro de Samarcanda, fazia todos os dias.
    Terminada a tarefa, ao cair da tarde, examinava atentamente um por um, os vasos que o jovem Namedin, seu discpulo dileto, havia modelado. Orgulhava-se com o progresso daquele adolescente na difcil e delicada arte da cermica. Revelava o principiante, na execuo das obras mais finas e delicadas, invulgar talento.
    Havia, entretanto, uma particularidade que fazia negrejar a dvida no esprito do mestre. Todos os dias, entre os vasos impecveis, esguios e bem torneados, repontava, fabricada pelas mos geis do artfice, uma pea (e uma s!) lamentavelmente mal feita, torta e deformada. Como explicar a presena daquele aleijo nico no meio de tantas perfeies e belezas? Decorreria a multido de uma falha insanvel ou no passaria tudo de um simples capricho do aprendiz?
    Amid, intrigado com o caso, resolveu desvendar o mistrio. Como apurar a verdadeira origem daquele desacerto, daquela anomalia? Vou observar o trabalho (pensou o oleiro) a fim de precisar o momento em que Namedin claudica e erra. E assim fez. Um dia, da manh at a quarta prece, o mestre acompanhou atento a faina do jovem. Era preciso descobrir a razo de ser do vaso torto...
    Afinal, o velho oleiro, sempre vigilante, viu satisfeita a sua curiosidade.
     
     
     Quando o vulto sedutor da namorada surgia, o aprendiz desorientava-se; suas mos tremiam...
    
    
    Todos os dias, a uma certa hora, graciosa menina que residia para alm da mesquita de Chan-Sindah, cruzava vagarosamente a rua. Namedin apaixonara-se por ela; e, por isso, ao v-la passar sentia-se confuso, perturbado.
    Ali estava, afinal, a explicao do mistrio. Quando o vulto sedutor da namorada surgia, o aprendiz desorientava-se; suas mos tremiam e o vaso que se achava, naquele momento, na roda girante, sob os cuidados de seus dedos geis, sofria as conseqncias daquela desateno.
    Como poderia o enfeitiado oleiro, naquele instante de comoo, guiar com segurana os seus dedos, dominar os vos de seu pensamento e aquietar os anseios de seu corao?
    Rejubilou-se o mestre de Samarcanda com a descoberta, e, a partir daquele dia, com mais carinho e interesse dedicou-se  nobre tarefa de orientar o discpulo querido. Ao amor, sim, e no  impercia do artista deveria ele incriminar o aparecimento do vaso defeituoso. E que importava, afinal, a mutilao de uma pea no meio das outras? A mulher amada, com a sua presena perturbadora, fazia surgir uma obra defeituosa; mas com sua ausncia, entretanto, inspirava dezenas de perfeies. E, ao ter notcia do caso, um poeta rabe, servo de Allah, escreveu trs ou quatro poemas admirveis que foram gravados em ouro e bronze no deslumbrante palcio de Tamerlo. O terceiro poema  lembra-me at hoje, muito bem!  comeava exatamente assim:
    
    Ao ver aquele vaso torto 
    Entre outros de forma esguia, 
    Penso no destino, absorto: 
     A mo do oleiro tremia!...
    
    Louvado seja Allah que criou a Poesia, a Beleza e o Amor!
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
A delicadssima trova, citada no fecho deste conto  de Xavier Jnior, inspirado poeta goiano.


NDICE
    
    
    
    Biografia de Malba Tahan ....................................	02
    Dedicatria ...........................................................	03
    Radi! Radi .........................................................	04
    Minha Vida Querida .............................................	07
    A Mulher e o Castial ...........................................	12
    O Pastorzinho Adormecido ..................................	16
    O Pai que Casou Cinco Filhas ..............................	19
    A Noiva do Cheique .............................................	24
    O Tempo Passa .....................................................	28
    O Amor e o Velho Barqueiro ...............................	31
    Homens Extraordinrios .......................................	32
    A Esposa e a Morte ..............................................	36
    Duas Tendas do Deserto .......................................	40
    Uma Fbula Sobre a Fbula .................................	43
    O Sinal de Ramanita .............................................	46
    A Filha do Muezim ...............................................	49
    O Mercador de Sonhos .........................................	52
    As Inconsolveis de Hamad ...............................	55
    Maktub! ................................................................	59
    A Noiva de Romaiana ..........................................	62
    A Seita dos Iakinis ................................................	65
    Um Noivado em Bagd ........................................	69
    O Marido Alugado ................................................	73
    A Danarina Hindu ...............................................	77
    Uma Lenda Sobre a Beleza ...................................	83
    Parbola das Mes Felizes ....................................	85
    A Lenda Singular do Vaso Torto ..........................	88
    
    
    
    
